Chegara em casa logo após o entardecer. Parecia levemente cansado pela labuta do dia. Amava o que fazia, por isso o trabalho não lhe era um peso.
Após um banho, gostava de rememorar o seu dia de serviço e pensar no amanhã. Lembrava, naquele dia, das lindas borboletas azuis que surgiram, misturando com outras, também tão lindas, mais comuns por ali e que há dias já estavam a pousar de flor em flor. Aquelas orquídeas enfim surgiram novamente. Cultivara a roseira e fofara a terra dos canteiros. Belas estavam as flores multicores naquela primavera.
Podou as folhagens, adubou a terra, molhou a grama que já estava a pedir novo aparo. Pensou. Pelo menos a esse tempo são mais raras as folhas caídas para ser recolhidas. O outono já passara há algum tempo.
Ia distraído no seu pensamento, quase um sonho, quando ouviu o chamado da esposa. – Vem jantar!
Terminou o pito e caminhou para a cozinha. Sentou-se no canto de sempre, olhou o prato já servido, pegou o garfo e silenciosamente ia iniciar sua refeição, quando novamente a esposa comentou. – Não tem carne, de novo. Está muito cara. Mas colhi um ovo. Dizem que é a crise.
O jardineiro ouviu em silêncio, olhou-a com ternura. Terminou de mastigar. Alheio, volveu novamente o olhar para a esposa e disse com a suavidade do seu ser. – Vou dormir, o inverno passou, mas agora estou preocupado com algumas lagartas que estão dando nas folhas de minhas hortênsias. E exclamou, ao final.
– Tenho que ficar sempre atento. As estações mudam! Boa noite.
(*) Juiz de Direito