Acordo bem cedo, já que gosto de fazer meu exercício diário antes do trabalho
Acordo bem cedo, já que gosto de fazer meu exercício diário antes do trabalho. Vejo minha mulher e meu filho, ainda bebê, aconchegados na caminha quentinha, após a primeira mamada. Que vontade de continuar ali, grudadinho! Mas a força de vontade prevalece. Coloco meu paramento, boné, óculos e fones de ouvido e saio pela avenida, para uma corrida leve. A manhã é ligeiramente fria e o sereno castiga o corpo ainda sonolento.
Esse momento é só meu, comigo mesmo e aproveito para refletir, pensar na vida, observar as pessoas e reavaliar minhas atitudes. A cada passada, novos pensamentos afloram. Penso nos novos projetos de vida, que se misturam com as angústias já vividas. Penso nas pessoas queridas que me cercam e nos desafetos que eu não gostaria de ter. Penso em tantas coisas ao mesmo tempo, que as ideias se confundem, mas a terapia é válida.
Após alguns minutos, na metade do caminho, vejo adiante, sentada num ponto de ônibus, uma mãe, com um pequenino no colo. Imediatamente, toda minha atenção se volta para aquela cena. A mulher ali sentada, envolvendo sua cria numa manta leve e gorrinho na cabeça, amamentando ao relento aquela criatura indefesa, esperando a condução para a lida. Naquele instante, diminuo o ritmo e me emociono. Consigo perceber a mãozinha acariciando o peito da mãe. Vejo que mesmo naquele ambiente desabrigado, a criança se sente segura, amada e protegida. Nem percebe o que se passa lá fora.
Sinto um desejo súbito de voltar pra casa. Acelero os passos. Aquela imagem não desprendia da minha mente. Meu peito ardia e meu coração soluçava. Pensava no quanto deveria agradecer a Deus, por poder manter meu filho protegido em casa todas as manhãs. Queria chegar logo para vê-lo e abraçá-lo. Como uma pessoinha tão pequerrucha poderia reavivar tanto amor. Um amor incomparável, tão puro e sublime! Abro a porta do quarto. Lá está ele, com aquele rostinho sereno e tranquilo, na mesma posição de quando o deixei, coladinho na mãe. Com os olhos inundados de lágrimas, rogo meu pensamento para aquela mãe com o seu bebê, que, apesar de fisicamente desamparados, estavam desconectados do mundo, cobertos e enclausurados pelo amor, verdadeiramente, o maior amor do mundo!
(*) Professor e pesquisador da Universidade de Uberaba; chefe de Gabinete da Prefeitura de Uberaba