O colega e cirurgião plástico Odo Adão sempre foi muito admirado, não apenas pela ética e pela competência profissional, mas também pela sua capacidade de comunicação, trazendo conhecimento de fatos, até então pouco ou mal explicados. Mesmo contando piadas ou “causos”, ele nos mostrou versões que nos enriqueceram, principalmente décadas atrás, quando os meios de comunicação eram arcaicos, comparados com os de hoje.
Tivemos muitas oportunidades de ouvi-lo durante o ato cirúrgico, pois as cirurgias plásticas eram frequentes e com muitas horas de duração. Em 1532, o Brasil iniciou a importação de africanos, que durou 300 anos, sendo o país que mais importou escravos no mundo (5 milhões, o que era equivalente a 50% da população brasileira). Foi marcante para mim quando o Dr. Odo, citando o livro “Casa Grande e Senzala”, do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, publicado em 1933, apresentou a importância da casa-grande e da senzala na formação sociocultural brasileira. O livro define os negros que chegavam ao Brasil em:
1- ladinos: eram os escravos mais diferenciados, pois falavam a língua portuguesa e tinham conhecimento de marcenaria, carpintaria e de construção de casas;
2- boçais: eram os escravos menos procurados, pois não falavam português e não eram conhecedores da carpintaria e da marcenaria;
3- Dr. Odo nos citou a origem do termo crioulos: o sentido não é pejorativo. Apenas se refere à primeira geração de negros nascidos e criados no Brasil, daí o termo. Dr. Odo dizia que “a Lei Áurea, ao ser assinada em 13 de maio de 1888, fez o negro brasileiro acreditar que, graças a essa lei, houve a abolição, o que é meia-verdade, pois:
1- a Lei do Ventre Livre já fora promulgada e concedera liberdade àqueles que nasceram após a publicação da lei;
2- a Lei dos Sexagenários, já promulgada, concedera liberdade àqueles que completavam sessenta anos;
3- os negros mais diferenciados, os ladinos, conseguiam sua autoalforria, pois trabalhavam além do horário para terceiros, pagando ao seu dono o valor estipulado. O exemplo maior foi Chico Rei, o mais diferenciado dos ladinos;
4- “os senhores de escravos”, sabendo da futura liberdade, iniciaram os primeiros movimentos para a importação de mão de obra estrangeira, principalmente italiana, pois anteviram a abolição”. Esta libertação ocorreu, segundo o Dr. Odo, “graças à lei que “concedeu” ao negro aquilo que ele já havia conquistado, parecendo um ato de bondade do governo brasileiro”. Dr. Odo continua: “o negro americano teve participação efetiva para conseguir a liberdade, buscando-a, participando na guerra civil americana, defendendo o norte vencedor e procurou se impor à sociedade americana, com verdadeiros guetos nas diversas áreas:
1- orquestras e conjuntos musicais somente de negros;
2- bairros somente de negros;
3- clubes esportivos de negros;
4- cantores e políticos negros;
5- maçonaria negra.
As características da atuação do negro americano foram muito marcantes, quase inexistentes no meio negro brasileiro”.
Há mais de duas décadas, o colega Edison Reis Lopes e sua esposa, Maria Antonieta, a fim de comemorarem a data de seu casamento, fretaram um ônibus e convidaram amigos, entre os quais tive a felicidade de participar, para passarem um fim de semana no “Hotel Fazenda das Andorinhas”, na área rural de Mogi Mirim, SP, onde guia turístico nos mostrou:
1- uma senzala que não tinha janelas, mas apenas portas pequenas e estreitas, o que facilitava a contagem dos escravos ao saírem da senzala;
2- a riqueza do fazendeiro não era baseada no tamanho da área rural, mas sim no número de escravos;
3- havia época programada para o “acasalamento dos escravos”;
4- nas madrugadas, quando o “senhor dos escravos” era acordado pelo choro de um bebê negro, era ordem dar uma dose de aguardente à criança, pois assim não acordaria o senhor.
Ouvi Dr. Odo e vi entrevista do ex-ministro Joaquim Barbosa e ambos relatam serem contrários às chamadas “cotas raciais”, mas favoráveis às “cotas sociais”, apoiando os mais necessitados, independente das suas etnias.
Não posso me esquecer de duas palestras, às quais assisti, proferidas pelo negro Olivério Nery, um mestre de obras de 1,90 metro, sobre “a escravidão no Brasil”, em que o palestrante, um “gentleman”, abordou o tema racismo, mas sem demonstrar qualquer sinal de racismo, dizend “o povo negro é alegre e trabalhador e pede apenas a oportunidade de trabalhar”. Olivério, Dr. Odo e Joaquim Barbosa merecem a comenda “exemplo de cidadania”.
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM
n.roso@me.com