Deparou-se o juiz com o raro olhar da mãe da vítima, dificilmente levada à oitiva nos autos. Foi ela ser ouvida pelo fato de seu filho ter desaparecido com informações de que fora assassinado de modo cruel. Tinha que informar das circunstâncias para a prova contra os acusados. Chegou com um triste olhar, já sem esperança. Logo o juiz percebeu. Queria ao menos enterrar o filho amado.
Era um olhar profundo, lancinante, aflito, que guardava o horror de ter que concluir pela morte do filho, o que, infelizmente, já lhe parecia definido. Afinal, carinhoso, o filho lhe falava diariamente, mesmo já morando fora de seu lar. Silenciado há dias, era o sinal do fim. Não podia nem velar seu corpo, dar enterro digno. Sentia uma dor para a qual não se tem consolo. Seu olhar não levava um pedido de piedade, de favor ou de misericórdia ao juiz. Como por um outro ângulo fosse o olhar de Maria, trazia em si um pedido de milagre.
Mas ela não era Maria e o juiz nada mais era que humano. O Seu olhar lacrimoso cortava quem ousasse mirá-lo, e o sofrer era perceptível pela umidade sanguínea que envolvia suas lágrimas sinceras. O juiz sentiu, empalideceu, tentando resguardar mesmo assim sua postura racional, embora, de fato, não estava intimamente indiferente ao caso em questão. É que as vítimas acabam não sendo as protagonistas dos autos, apesar de terem mãe, família e história própria. O olhar da mãe da vítima, concluiu o juiz, é mais dolorido e comovente em seu silêncio definitivo e em sua desesperança concreta que o também sincero e sofrido olhar da mãe do réu.
Há que se orar por essas mães. Concluiu. A vida é muito mais que o se passa nos autos, cuja verdade é formal e limitada e não registra a intensidade verdadeira da dor e emoção dos envolvidos. Aos prantos e soluços, a mãe da vítima se foi, deixando naquele tribunal vibração retumbante a ecoar toda dimensão de sua dor. Foi ela procurar socorro noutra esfera. No templo, no tempo, na taberna ou na rotina, pois ali, no tribunal dos homens, não o encontrou.
A vida é mesmo assim, dura como ela é.
Ricardo Cavalcante Motta