Recebera um olhar fulminante. Vinha deste olhar um ódio insanável. Era negro, impiedoso...
Recebera um olhar fulminante. Vinha deste olhar um ódio insanável. Era negro, impiedoso, vingativo, de mau agouro. Reparou que estava bem dirigido a si, mas não o temeu. Não podia recear tais ofensas, abrir flancos de fragilidade. Era relevante percebê-los para sua defesa, afinal, sabia que era odiado por muitos. Ela destinou-lhe o olhar cruel logo que veio saber quem era ele, o juiz que condenou seu homem. Carente de afeto, passou a amar incondicionalmente seu marido e a acreditar cegamente nele, como acreditam os apaixonados, vez que ele alimentava seus sentimentos com ilusões entre envolvimentos amorosos ardentes. Seu marido se fazia de vítima para comovê-la. Quando ele, seu marido, foi preso pela primeira vez, atribuiu o resultado a um erro ocasional, uma fraqueza, por influência das mas companhias. Quando fora condenado por derradeiro, justificou o fato pela armação de inimigos e perseguição policial. Reincidente, ficou fechado por anos, enquanto ela, carente do seu afeto, criava os filhos com dificuldades. Sofreu muito por isso. Uma sanção injusta do juiz que não percebeu a trama, era o que pensava. Não conhecia a verdade dos autos. Entendia a condenação como absurda e sua mágoa era potencializada pelas privações que passou. Noites solitárias, dinheiro muito minguado, trabalho redobrado, filhos sofrendo. Tudo por culpa daquele sujeito, o malvado e indiferente juiz do caso. Não destinou seu ódio aos supostos articuladores da trama contra o réu. Informaram ao juiz que aquela era a mulher de um réu que condenara. Este constatou que o olhar era muito pior que do próprio réu, intimamente consciente de seus atos. Compreendeu. Benzeu-se. Orou pelo réu, pela mulher dele, filhos, mãe, pai, e também pelos seus, todos navegantes desse mesmo barco do tempo comum de suas existências no mundo divino. Mas, concluiu que nunca deparou com olhar tão severo quanto o olhar da mulher do réu.