Certa feita um amigo aproximou-se de outro amigo que repousava tranquilo e sereno numa rede de descanso, suspensa sob uma fresca varanda em sua singela casa de campo, e comentou. “Admirável como alguém pode ser tão feliz com tão pouco!” E o comentário não foi feito de modo irônico, foi mesmo exclamativo diante da cena.
Era que o amigo que lançou o comentário ouvira tantas histórias de alegria e prazer daquele amigo, ali naquele lugar, que até então não conhecia. Sempre repetia bem daquele seu rincão de terra onde costumava habitar naquele modesto chalé nos momentos de lazer. Lugar onde, pelas narrativas, demonstrava ter em si a total realização.
O amigo ouvinte ficou até admirado, embora soubesse simples seu canto, jamais tinha notado que o era tanto assim, tão humilde, a ponto de merecer a exclamação surpresa a respeito. Afinal, ali colhia a paz, certamente um dos principais elementos da felicidade. Ainda questionou se não havia sublimado demais seu recanto de paz, a ponto de parecerem soberbas e inverídicas as narrativas de seu lugar predileto. Mas, enfim, nada estava escondendo, levara lá o amigo para sentir e ver pessoalmente a simples nobreza do lugar, porém, muito bem ornado de fora pela linda natureza.
O amigo visitante, a seu turno, aproveitou também para se dispor a realizar uma revisão nos seus íntimos conceitos de exigências para compor a sua felicidade, colocando seu móvel para ser feliz menos no cenário de requinte e mais no contexto do sentir.
Pois eh! Embora amigos não possam ser medidos pela riqueza econômica, a título de ilustração, tenho outro amigo que possui riquezas. Não me refiro agora à sua riqueza de caráter moral, mas à outra, a riqueza financeira. Porém, vejo, surpreendentemente, que seu ponto maior de alegria, paz, onde respira a felicidade, é sob um pobre pé de seriguela, que está fixado no quintal de sua casa, na roça. Isso mesmo. Um pé de seriguela. Não é jacarandá, ipê, não é jequitibá, carvalho, mogno ou outra madeira-de-lei. É um pé de seriguela, simplesmente. Achou ali o seu lugar, ali o seu cantinho, sob um pé de seriguela, simples, singelo, que eventualmente ainda lhe dá um doce fruto pequeno para lhe agradar o paladar. Quem diria, seu Oásis desse mundo é o pé de seriguela. Já tive oportunidade de abrigar-me ali sob ele e, de fato, é um ponto de paz. Nesse ponto, alegremente reúne amigos, sorri ou fica só a refletir. Lá, sempre feliz. Depois dessas lições, embora não queira diminuir as nobres árvores, tenho sempre os olhos muito bem atentos para os pés de seriguelas da vida, para as tendas pobres, onde pode estar guardado, pelo capricho da nossa vida, o pote sagrado da paz, do amor, da felicidade.
Perceba, amigo, no seu entorno, onde está o seu pé de seriguela! Pode estar até na sua casa, mesmo que castelo não seja.
O certo, porém, é que a felicidade não está ligada ao luxo ou ao requinte de um lugar. Também não é que só estará no lugar simples por norma. Afinal, o que se abstrai é que a felicidade está disponível a todos e está é dentro de nós. Evoluir a alma, o espírito, para encontrá-la mais por perto, facilita. Você é o templo sagrado.
Portando, estejamos onde estivermos pela declinação do destino, cabe a nós a sabedoria de sempre criarmos ambiente interno capaz de possibilitar brotar a semente da felicidade, a ser cultivada sob o seu pé de seriguela.
Afinal, o regente maior deixou em nós essa semente e para todos que queiram desfrutar dessa graça, dissociada da riqueza. O lugar é o âmago da alma que habita o templo sagrado do nosso corpo, reitero. O ambiente é a compaixão, a caridade e a humildade de saber não só ganhar, como é a regra, mas também saber perder, para temperar o crescimento do ser. Então, na choupana ou sob o pé de seriguela, no trono ou onde for, poderá ter a paz, o prazer e a bênção de estar feliz, talvez até alcançar a situação especial de ser sempre feliz.