ARTICULISTAS

O peso da omissão

Para escrever tive que me acalmar. Estou ansiosa, o coração acelerado, sufocada com tanta indignação. Já andava assim, mas na segunda-feira (29)

Mariângela Camargos
Publicado em 06/04/2010 às 20:42Atualizado em 20/12/2022 às 07:15
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Para escrever tive que me acalmar. Estou ansiosa, o coração acelerado, sufocada com tanta indignação. Já andava assim, mas na segunda-feira (29) quando li a notícia da prisão da presidente do Lar da Caridade foi a gota d’água. Imediatamente senti o sangue subir na face. A mesma face que levou lambadas no ano passado.

 Sinto-me envergonhada por integrar uma sociedade omissa e principalmente por fazer parte de um grupo de pessoas que lutam em defesa dos direitos da criança e do adolescente e que não reagem à violação desses direitos. Todos os dias ficamos sabendo de casos de desrespeito à dignidade do cidadão infanto-juvenil.

Para quem gosta de diversidade, as notícias nos veículos de comunicação da cidade são variadas, vão desde a falta de vagas nas escolas, passando pela exploração sexual  infantil até a morte precoce de crianças e adolescentes. Fatos banais do nosso dia-a-dia!

Na segunda (29), foi a vez da presidente do Lar da Caridade aparecer nos jornais, sendo presa por não cumprir a determinação do juiz , de acolher uma adolescente  em regime de abrigo na casa lar que preside.

Fato banal, né! Uma cidadã uberabense que há mais de 20 anos realiza um trabalho social que a Prefeitura deveria realizar, foi presa por se recusar a atender a adolescente em situação de risco social na casa lar lotada e que tem regras para o atendimento.

Que sistema de proteção é esse que deixa a situação chegar ao extremo de termos tantas crianças e adolescentes para institucionalizar e não termos vagas para acomodá-los.  Deixarmos a situação chegar ao extremo do abrigamento!

Somos omissos! Sou omissa!

Por que eu não denuncio os maus-tratos que percebo, a falta de atendimento do poder público, o abuso de autoridade, a dominação de bandidos em nossa cidade? Por que, mesmo incomodada, eu prefiro ficar no meu canto?

Não nos preocupamos com a prevenção.  Deixamos diminuir as vagas nas escolas; não temos educadores suficientes para as salas de aula; cortamos verbas importantes para o atendimento de prevenção e proteção da criança; enxotamos várias delas para fora dos projetos sociais da cidade. Deixamos que elas saiam da rede de proteção e se percam nas  malhas da vulnerabilidade social. Fechamos os olhos para a situação de extrema urgência em que se encontram essas crianças, que com menos de 5 anos já traficam drogas nas ruas de Uberaba.

As famílias estão se entregando ao poder paralelo para manterem sua dependência química ou a alimentação básica de seus filhos.

E nós fechamos os olhos!

As instituições estão atendendo cada vez mais e com menos condições, pois tudo é escasso e a única coisa que abunda é a boa vontade.

Mas a situação não é só essa. As crianças e adolescentes estão saindo de suas famílias para serem institucionalizadas. Cada dia que passa temos mais e mais crianças necessitando serem afastadas do seio familiar por maus-tratos, abandono, exploração sexual, trabalho infantil, assassinatos e drogadição. Dia-a-dia acompanhamos nossa sociedade descuidar de seus filhos, deixando-os morrer antes mesmo de chegarem a ser civilmente capazes. Dia-a-dia assistimos  nosso sistema democrático falir, nossa Constituição Federal ser desprezada e nosso Direito deixar de cumprir o seu princípio de manter a ordem social.

Sinto-me envergonhada e violentada. Percebo que não posso confiar na justiça. Temos órgãos competentes para promover a ordem social e a segurança pública, mas sem resultados efetivos. Será que terei que fazer justiça com as próprias mãos? O que é justiça para os órgãos que compõem a Rede de Proteção da Criança e do Adolescente? Será que conhecem como e a quem proteger?

Muitas dúvidas têm atentado a minha cabeça, ultimamente. Tenho ficado inquieta e isso não é bom para a minha saúde. Mesmo assim, não vou desistir da cidadania. Vou continuar acreditando no sistema social, mas por prevenção vou acionar a instância Divina para que nos guarde das situações difíceis da vida e abra mais vagas no céu para receber as almas inocentes.

Vou aproveitar e pedir perdão a Ele por falhar tanto como cidadã, já que os órgãos a quem eu deveria me dirigir para prestar contas da minha omissão estão fechados em seus problemas internos.

(*) jornalista, coordenadora da Frente de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Triângulo Mineiro

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