Em 1987, estudante sazonal da Fiube, fui procurada para encabeçar e divulgar um abaixo-assinado entre os alunos da faculdade, cujo objetivo era convocar uma assembleia geral de discentes com o fim de promover eleições para o Diretório Central dos Estudantes. Acéfalo há vários anos, o DCE era mantido em estado de semi-sobrevivência pela disposição e compromisso de um único alun o amigo que me solicitou e me acompanhou na ação. A assembleia foi convocada, e a nova diretoria dinâmica e questionadora, tornou-se rapidamente incômoda face à direção desacostumada (por todos os anos anteriores) com a atuação política do alunato. A tensão criada a partir dos conflitos entre reivindicações e negativas, levou o reitor a interditar a sede do Diretório (uma sala no interior do prédio da faculdade), lacrando a porta com cadeado e declarando – figura ímpar que era – em programa de TV "a chave está aqui na minha guaiaca". A mobilização estudantil foi na medida da interdiçã declaração de greve com suspensão imediata das aulas dos cursos noturnos. Momento inédito para muitos alunos, a discussão das lideranças para organização do movimento foi atropelada por um pequeno grupo – no extremo da emocionalidade – que se propôs a invadir e ocupar dependências da escola (lembra, Bragança?) Não foi adiante a pretensã aquele amigo que mantivera o espírito do DCE bloqueou a marcha dos colegas e restaurou a serenidade. Deixamos juntos a faculdade, e juntos engrossamos a passeata que, no dia seguinte, parou o campus da Guilherme Ferreira. Nos anos seguintes, nossa convivência se estreitou na militância partidária e, durante os meus tempos de trabalho e colunismo em jornal, na divulgação dos eventos esportivos que ele, quixotesco, promovia. Às limitações que os pequenos pés lhe impuseram, ele respondeu com o mesmo empenho que o conduzia na política: buscou o esporte que não exigia o corpore sano. Foi campeão mineiro e, nas três últimas décadas o grande incentivador do raciocínio de crianças e jovens em torno do tabuleiro de reis, rainhas, bispos e peões. Vimo-nos pela última vez, há umas poucas semanas, ele, debilitado, andando com uma dificuldade maior, mas fiel ao sonho, promovendo mais um campeonato. Conversa exígua, abraço rápido na despedida, boa sorte. Ele partiu para o andar de cima na madrugada de domingo, deixando para os amigos o sorriso certo, a afabilidade inequívoca, o espírito da persistência e uma saudade enorme. E para Uberaba, o brilho de um sobrenome: Xico Xadrez.