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O Vice-Prefeito

Era um feriado prolongado. O dia estava belo quando recebeu a triste notícia da morte de seu amigo...

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 11/02/2017 às 21:42Atualizado em 16/12/2022 às 15:13
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Era um feriado prolongado. O dia estava belo quando recebeu a triste notícia da morte de seu amigo, o prefeito recém-eleito. Tinha ido comemorar a eleição para as bandas da praia, mas excedeu na farra e morreu num acidente de carro. Ele era o vice-prefeito. Mal cumpridos os protocolos de despedida fúnebre, foi empossado no lugar dele, sem estar esperando. Fora incluído como candidato para fortalecer a chapa, por não ter perfil de político. Administrou, então, tecnicamente, pois não tinha conchaves. Logo tudo na cidade entrou no eixo. Passou a ser muito festejado aonde ia e por todo o tempo. Convites e homenagens recebia aos montes. Bajuladores sem medida. Todos os números apontavam o êxito da sua administração, até que chegou o tempo da reeleição. Pensou em tentar, como tendência natural. Afinal, gostou do exercício do poder. Reuniu, então, o partido para saber do apoio, das coligações, financiamento da campanha, convenção. Mas, qual não foi sua surpresa. Embora tivesse alto índice de aprovação popular, vacilaram no apoio. Diziam que para seguir com o grupo tinha que mudar seu jeito rígido de administrar. Teria que atender aos pleitos dos políticos do grupo, não ser tão técnico, senão prefeririam eleger na convenção um político que falava a língua do grupo. Entendeu daí a mensagem o vice-prefeito que virou prefeito. Tinha que fazer conluios. Decepcionado, resolveu não concorrer à reeleição. Era sistemático. Não engolia as negociatas propostas. Feriam seus princípios. Achou aquela prosa muito estranha. Não gostou nada dela. Enfim, venceu seu mandato. Sumiram os festejos. Não viu mais os bajuladores, do que até se aliviou. Os convites sociais voltaram ao normal. O reconhecimento pela sua boa administração ficou, talvez, para registro da história. Mas bastava a si consciência tranquila.

Deitou-se para repousar. Pensou em tudo isso. Entendeu que nesse mundo a maioria festeja o cargo, pelos seus interesses, não as pessoas. Pegou na mão da esposa, que já dormia, mas comungava do seu agir. Lembrou-se dos filhos, de seus pais. Respirou fundo, virou-se e dormiu em paz. Não sofreu. Afinal, a rigor, não queria ser parte daquele mundo.

(*) Ricardo Cavalcante Motta

Juiz de Direito

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