Uberaba é, hoje, um pólo cultural e um centro de produção e transmissão de conhecimento
Uberaba é, hoje, um pólo cultural e um centro de produção e transmissão de conhecimento, devido às várias instituições de Ensino Superior existentes no município. No entanto, padece ainda de um ranço, que teria suas raízes nos tempos negros do regime militar. Explico-me: é sabido que a Filosofia sempre incomodou os regimes de força, que precisavam ancorar-se na ignorância. Pensar, nesses casos, caracterizava-se atividade subversiva. Ensinar Filosofia nas escolas seria, então, de extrema periculosidade, pois colocaria em risco as bases do sistema e se tornaria um problema de segurança nacional.
A Filosofia, como a Sociologia, foi banida das escolas, tanto do Ensino Básico, como do Superior. Quando voltou aos currículos dos cursos superiores, com a volta da democracia, encontrou ambiente pouco propício. Não só faltavam professores, como faltava, o que é pior, a consciência dos gestores em educação sobre a sua importância na formação dos profissionais.
Para muitos, a formação que interessa é a técnica, aquela que municia o estudante com conhecimentos que o habilitam a exercer sua profissão de forma mais ou menos competente. Olvida-se, então, que este profissional é um ser humano e um cidadão antes de ser profissional. Que somente será um bom profissional quando souber refletir sua prática e tiver instrumentos conceituais que lhe permitam fazer perguntas e lançar-se na aventura de buscar novas respostas.
Este papel, inegavelmente e historicamente, compete à Filosofia, porque uma atitude filosófica é aquela que pensa nos fundamentos, reclama os princípios, analisa as consequências, destaca as origens, resgata as incongruências. Quem afirmaria que esta atitude não é importante na formação da juventude?
Infelizmente, percebemos que, em alguns cursos superiores, a Filosofia somente consta na grade curricular com função estética. As disciplinas filosóficas (que têm outros nomes, mas conteúdo filosófico, inclusive a ética) não são levadas a sério, porque professores de qualquer formação são chamados a ministrá-la. Encontramos professores com formação em História, Pedagogia, Letras, Direito etc., considerando-se habilitados a ensinar aquilo que não constava de sua área de formação. Talvez 60 horas-aula ou um pouco mais na sua graduação já são considerados o suficiente para torná-lo "professor".
Façamos uma analogia, aqui, para compreendermos o que isso significa: se no curso de Medicina encontra-se uma disciplina que exige conhecimento de Biologia, o seu coordenador procurará um biólogo, e não uma pessoa que, quando fez a graduação em Medicina, estudou esta disciplina. Caso este coordenador não encontre um profissional na cidade, irá procurá-lo em outros centros. Se na grade curricular do curso de Engenharia Ambiental há uma disciplina do tipo "Legislação Ambiental", o coordenador deste curso chamará um professor com formação em Direito. E poderíamos nos estender nos exemplos.
Os gestores dos cursos superiores sempre procuram os melhores profissionais para ser professores e cuidam para que tenham a formação necessária. Isto, porém, não acontece quando a disciplina é filosofia ou sociologia. Há um descaso, um desrespeito para com o aluno. Alguém poderia afirmar que se pode aprender Filosofia de forma autodidata, sem necessariamente cursar um Bacharelado ou Licenciatura em Filosofia. É verdade que isto pode ocorrer, mesmo com outras áreas do conhecimento, como direito, história, geografia, biologia etc. Mas ninguém contrataria, a nível de Ensino Superior, um autodidata para outras disciplinas consideradas técnicas.
Um professor que teve uma formação inicial em outra área realmente e é um apaixonado pela Filosofia teria procurado pelo menos fazer uma Pós-graduação nessa área. Vejam o caso de Wittgenstein (ele era engenheiro de formação inicial) e de Russel (era matemático), entre tantos exemplos de filósofos que começaram sua vida acadêmica por outra porta e depois foram seduzidos pela filosofia. Eu mesma tive vários alunos, de diferentes cursos, que depois de terminar sua graduação – ou até antes – enveredaram para uma Pós-graduação em Filosofia. Afinal, a Filosofia tem o seu conteúdo específico e sua metodologia própria de pesquisa e ensino.
Como se pode transmitir um conhecimento não assimilado, utilizando manuais, sem ter lido o pensamento dos filósofos nos seus originais? Lamentavelmente, presenciamos disciplinas filosóficas sendo tratadas em cursos superiores, sem o mínimo rigor. O que confirma nossa tese inicial: a desimportância da filosofia no Ensino Superior praticado nas instituições de Ensino Superior particulares de Uberaba.
A Filosofia representa o potencial de libertação racional do homem, porque lhe oferece instrumentos que lhe permitem, por meio de ligações lógicas, estabelecer relações e atribuir sentido aos fenômenos por ele estudados. Estamos incorrendo no pecado de formar bons técnicos, mas péssimos homens. Acredito que os estudantes têm direito de conhecer o pensamento filosófico acumulado durante séculos, para, a partir dele, se lançar em sua própria aventura de produzir conhecimento.
(*) filósofa e professora universitária