Comunicação falsa de incêndio, que obriga o deslocamento de veículo e equipe especializados, gera prejuízos de até R$500/hora aos cofres públicos
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Em todo o Estado de Minas Gerais, em 2018, foram mais de 8,2 mil trotes; em Uberaba, já passa de uma centena
Além de salvar vidas diariamente e lidar com tragédias, acidentes e desastres de toda natureza, homens e mulheres do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em Uberaba, estão sendo obrigados a enfrentar um inimigo altamente covarde e cada dia mais intens os trotes telefônicos. A tal brincadeira, que não tem graça alguma, atrapalha – e muito – o trabalho desses profissionais.
De acordo com levantamento realizado pelo Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds), no ano passado, em todo o Estado, o Corpo de Bombeiros registrou 8.249 trotes telefônicos, sendo que 7.879 registros foram de chamados de ocorrências que não existiam. Em 2019, somente nos três primeiros meses do ano, foram registradas mais de três mil ligações fraudulentas.
Em Uberaba a situação não é diferente. Apenas em 2019 foram centenas de chamados falsos na Central do Corpo de Bombeiros. O último e mais recente, três viaturas (resgate, salvamento e caminhão-tanque) se deslocaram ao bairro Jardim Maracanã, onde o solicitante relatou que uma residência se encontrava em chamas e duas pessoas estavam presas dentro do imóvel. Ao chegarem ao endereço, nada foi constatado.
Uma estimativa de prejuízo contabilizada nos primeiros meses do ano dá conta de que o deslocamento de um carro autobomba, de combater fogo, com quatro militares, para atendimento a uma solicitação falsa de incêndio, por exemplo, pode custar cerca de R$500/hora, considerando todos os recursos empregados, como homens e equipamentos. Um trote em que haja saída de uma unidade de resgate, com três militares, custa cerca de R$200/hora. Já o emprego inadequado de um helicóptero, com três militares, pode chegar a R$6.000/hora.
No entanto, existe outro prejuízo que não pode ser mensurado. O deslocamento de viatura para uma falsa ocorrência pode resultar na morte de alguém que esteja precisando, de fato, de socorro. Por isso, é importante instruir e monitorar as crianças para evitar este tipo de brincadeira. Para os adultos que praticam tais infrações, vale o alerta de que existe lei em vigor, desde o ano de 2016, que pode até mesmo indicar a prisão de quem realizou o trote. Segundo o artigo 266 do Código Penal, quem for descoberto interrompendo ou perturbando o serviço telefônico de qualquer entidade de segurança pública, praticando denúncia de falso crime, comete um delito e a pena é prisão de um a seis meses e multa.
Além dos trotes, o Corpo de Bombeiros ainda é obrigado a lidar com a falta de bom-senso e respeito por parte do cidadão uberabense. De acordo com os militares, recentemente, em uma das ocorrências, guarnições foram acionadas para molhar o telhado de residência por conta do calor. Em outro caso, uma senhora acionou o Corpo de Bombeiros para combater pernilongos que estavam na residência. E não para por aqui. Nos últimos dias, um homem solicitou os bombeiros para obrigar morador a baixar som automotivo na casa de vizinho.
Samu é mobilizado para atendimento de falso acidente em rua do Santa Maria. Se por um lado o Corpo de Bombeiros já atendeu centenas de falsos chamados em 2019, por outro, o Samu de Uberaba também padece com o problema.
De acordo com informações apuradas pela reportagem, durante os primeiros 6 meses de 2019, mais de 600 trotes de acidentes deram entrada na Central de Atendimento e Regulação do Samu. O último e mais recente aconteceu na noite de terça-feira (25), quando a Unidade de Suporte Avançado - USA se deslocou até a rua Minas Gerais, no bairro Santa Maria, onde o chamado dava conta de ter ocorrido acidente envolvendo motociclista, e o mesmo estaria sem respirar. No local, os socorristas nada encontraram. A reportagem também esteve no endereço e presenciou vários jovens sentados em um grupo na via, sendo os mesmos potenciais suspeitos de terem praticado tal ligação.
A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil na tentativa de conhecer se algum tipo de operação visando combater esse tipo de crime pode ser desencadeada. Até o fechamento desta edição não conseguimos contato com nenhum delegado.