Em entrevista ao Jornal da Manhã, o especialista, consultor sênior da FGV Europe, David Roquetti Filho, analisa com profundidade os riscos, as oportunidades e os caminhos possíveis para que o Brasil reduza sua vulnerabilidade e avance rumo a uma maior autonomia no setor
David Roquetti Filho é consultor sênior da FGV Europe e foi diretor da Associação Nacional para Difusão de Adubo (Anda) entre 2010 e 2020 (Foto/Divulgação)
Em um mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, cadeias produtivas frágeis e disputas por recursos estratégicos, um insumo silencioso ganha protagonismo decisivo: o fertilizante. Base da produtividade agrícola moderna, ele sustenta não apenas safras, mas a segurança alimentar de países inteiros. No caso do Brasil — uma das maiores potências agrícolas do planeta —, essa dependência revela um paradoxo incômodo: mesmo com vastos recursos naturais e enorme capacidade produtiva, o país ainda importa a maior parte dos nutrientes que garantem sua própria produção.
Esse retrato nacional ganha contornos ainda mais simbólicos em Uberaba, no Triângulo Mineiro — região que se consolidou como um dos principais polos do agronegócio brasileiro. A cidade, conhecida por sua vocação produtiva e estratégica, carrega também um episódio emblemático dessa dependência: a planta de amônia que nunca chegou a se concretizar por falta de gás natural competitivo. O desfecho, quase surreal, transformou o que poderia ser um marco de autonomia industrial em símbolo de descontinuidade — equipamentos desmontados e enviados para o exterior.
Entre gargalos históricos, desafios logísticos, entraves regulatórios e uma geopolítica cada vez mais instável, o debate sobre fertilizantes deixou de ser técnico para se tornar estratégico. Em entrevista ao Jornal da Manhã, o especialista, consultor sênior da FGV Europe, David Roquetti Filho, analisa com profundidade os riscos, as oportunidades e os caminhos possíveis para que o Brasil reduza sua vulnerabilidade e avance rumo a uma maior autonomia no setor. Confira a sínese da entrevista:
Jornal da Manhã - O Brasil ainda é muito dependente de importações? Em quais nutrientes isso é mais crítico?
David Roquetti Filho - Sim, e essa é uma realidade que já não é nova — mas continua sendo alarmante. Quando a gente olha para os três macronutrientes principais usados na agricultura, o famoso NPK — nitrogênio, fósforo e potássio —, o Brasil depende de importação em cerca de 86,76%. Esse número, calculado sobre a oferta líquida de fertilizantes em 2025, resume bem o problema.
Estamos falando de um país que tem terra, água, sol e que alimenta boa parte do mundo, mas que ainda assim produz internamente apenas 13,24% do que consome. Para se ter uma ideia, de uma oferta total de quase 50 milhões de toneladas, mais de 43 milhões vêm de fora.
E quando a gente detalha isso, o cenário fica ainda mais crítico. No potássio e no nitrogênio, a autossuficiência brasileira gira entre 2% e 3%. Ou seja, praticamente tudo é importado. No fósforo, o país consegue produzir mais — cerca de 30% —, mas ainda assim depende muito do exterior, principalmente porque quase todo o enxofre necessário para produzir fertilizantes fosfatados também é importado.
E tem mais: fertilizantes como DAP e MAP dependem de amônia e ácido fosfórico, que por sua vez dependem de ácido sulfúrico. Já a produção de amônia exige gás natural — e aí entra outro gargalo: o Brasil até tem gás, mas grande parte dele é reinjetada nos poços e não chega ao mercado com preço competitivo.
JM - E como fica essa situação diante do cenário geopolítico atual?
David - A situação precisa ser lida com atenção — não só pelo que aparece, mas principalmente pelo que não aparece. Eu costumo chamar isso de “o silêncio dos recursos”. Fertilizantes não fazem barulho, não viram manchete todo dia. Mas isso não significa que não sejam estratégicos.
No caso do Brasil, o problema é duplo: além de depender muito de fora, o país ainda conhece pouco o próprio subsolo. Diferente de países desenvolvidos, que investiram pesado em mapeamento geológico, o Brasil ainda não tem clareza total sobre o tamanho das suas reservas.
Isso cria um paradoxo curioso: o país pode ser rico em recursos… sem saber exatamente o quanto.
E quando a gente traz isso para a geopolítica, o risco fica evidente. Hoje, cerca de 32% dos fertilizantes importados vêm da Rússia. A Bielorrússia também é peça-chave no potássio. Já a ureia — essencial para o nitrogênio — depende muito do Golfo Pérsico, passando pelo Estreito de Ormuz, uma das regiões mais sensíveis do mundo.
Ou seja, quando o Brasil fala de fertilizantes, está falando também de Rússia, Oriente Médio, Estados Unidos e conflitos internacionais.
A guerra da Ucrânia mostrou isso claramente: preços dispararam, cadeias logísticas travaram e ficou evidente que essa dependência pode virar um problema sério rapidamente.
JM - Existe risco de desabastecimento?
David - No curto prazo, não vejo risco imediato. Mas no médio prazo, isso depende de fatores que o Brasil não controla.
Hoje, 99,43% dos fertilizantes chegam por navio. Se houver um bloqueio marítimo, uma sanção ou um conflito em larga escala, o problema deixa de ser preço — passa a ser falta de produto mesmo.
E o Brasil não tem estoque estratégico relevante. Ou seja, o risco não é só faltar fertilizante. É não ter alternativa quando ele faltar.
JM - O Plano Nacional de Fertilizantes está funcionando?
David - Ele está avançando, mas ainda de forma lenta. É um plano melhor estruturado do que os anteriores, com diagnóstico correto e visão mais ampla. O Brasil finalmente entendeu o tamanho do problema.
Mas reconhecer o problema é uma coisa. Resolver é outra.
Na prática, os números ainda não mudaram. O país continua importando praticamente o mesmo volume — e até mais, em termos absolutos.
O grande desafio é transformar esse plano em política de Estado, e não apenas de governo. Porque projetos dessa área exigem tempo, investimento pesado e continuidade — algo que o Brasil historicamente tem dificuldade de manter.
Além disso, tem o fator econômico: juros altos. Fertilizantes exigem investimentos de longo prazo e, com custo de capital elevado, muitos projetos simplesmente não se sustentam.
JM - O Brasil pode se tornar autossuficiente?
David - Autossuficiente, no sentido absoluto, é difícil. Mas o Brasil pode — e deveria — buscar autonomia estratégica.
No nitrogênio, o país tem condição de avançar, porque tem acesso ao principal insumo, que é o gás natural. O problema aqui não é falta de recurso, é falta de decisão e de competitividade no preço do gás.
No potássio, o recurso existe, principalmente na Amazônia, mas há desafios ambientais, logísticos e regulatórios.
Já no fósforo, o Brasil tem reservas, mas de menor qualidade em comparação com outros países, o que encarece a produção.
Então, o caminho mais realista seria reduzir a dependência — por exemplo, sair de 86% para algo próximo de 50% nas próximas décadas. Isso já seria uma transformação enorme.
JM - Quais são os principais gargalos hoje?
David - São vários — e todos interligados. O maior deles é o potássio: o Brasil importa quase tudo o que consome. Depois vem o nitrogênio, onde o problema central é o gás natural caro e mal distribuído.
Tem também o gargalo tributário, que historicamente favoreceu o produto importado. Apesar de avanços recentes, ainda há distorções importantes.
Outro ponto crítico é a logística: grande parte dos fertilizantes entra por poucos portos, e a distribuição depende muito de rodovias.
E há ainda o problema da falta de continuidade nas políticas públicas. O Brasil é bom em diagnóstico — mas ruim em execução.
JM - E o caso de Uberaba, com a planta de amônia? Há chance de retomada?
David - Uberaba virou símbolo do que deu errado. A planta foi construída, os equipamentos estavam lá, mas o gás natural — essencial para operar — nunca chegou como deveria.
O resultado foi surreal: a planta foi desmontada e enviada para a Índia.
Hoje, a retomada é possível, mas depende de três coisas: gasoduto, decisão política e investimento de longo prazo. Não é impossível — mas exige prioridade real.
JM - Os nitrogenados são o maior desafio?
David - Sem dúvida. E o problema central é o gás. O Brasil paga muito mais caro pelo gás natural do que países concorrentes. Enquanto nos Estados Unidos ou no Oriente Médio o custo é baixo, aqui ele pode chegar a três ou quatro vezes mais.
Como o gás representa até 80% do custo da amônia, isso tira completamente a competitividade da produção nacional.
JM - Quais políticas públicas são essenciais?
David - São cinco pilares principais:
Subsídios podem existir, mas de forma pontual — principalmente para infraestrutura e inovação. Não faz sentido subsidiar operação ineficiente.
JM - Como a variação de preços impacta o produtor rural?
David - Impacta diretamente na margem. Fertilizantes representam entre 23% e 50% do custo de produção das principais culturas.
E o produtor tem um problema: ele não define o preço do que vende. Ele aceita o preço do mercado internacional.
Então, quando o fertilizante sobe, a margem diminui imediatamente. E, como o Brasil depende do exterior, o produtor acaba absorvendo toda a volatilidade global — mais o câmbio e os custos internos.
No fim das contas, o produtor brasileiro carrega, dentro da porteira, o custo de uma cadeia que ainda não está estruturada como deveria.
JM - Como o senhor enxerga o setor nos próximos 10 anos?
David - Três forças em tensão permanente: a Demanda crescente — o Brasil vai continuar expandindo sua fronteira agrícola e sua produtividade. Os fertilizantes serão ainda mais necessários. A Transição biológica — o mercado de biofertilizantes cresce a dois dígitos ao ano. Não substituirá os minerais, mas os complementará — e reduzirá a vulnerabilidade na margem. E, por fim, a Geopolítica como variável permanente — quem acreditou que o mundo voltaria à normalidade depois de 2022 já foi surpreendido mais de uma vez.
O setor de 2035 será mais diversificado, mais tecnológico e, espera-se, menos dependente. Mas sair dos atuais 86,76% para algo próximo de 50% exige que o Brasil mantenha a chama da urgência acesa — mesmo quando o insumo voltar a ser mais economicamente acessível e abundante. E esse é exatamente o nosso ponto cego histórico.
JM - A agricultura de precisão vai reduzir ou aumentar o consumo de fertilizantes?
David - Vai reduzir o desperdício — e esse é o ponto que importa. Sensores de solo, drones, aplicação por taxa variável, mapeamento georreferenciado: a tecnologia permite colocar o nutriente certo, no lugar certo, na hora certa. Estudos apontam redução de até 30% no uso de insumos, com ganhos de 25% em produtividade.
Mas há uma ironia filosófica: quanto mais produtivo o campo, mais nutrientes o solo devolve para a planta — e mais reposição será necessária. O volume total pode não cair. O desperdício, sim. Num país onde 86,76% da oferta líquida de fertilizantes atravessa oceanos alheios, a agricultura de precisão é a soberania que o produtor pode exercer dentro da porteira — independentemente do que acontece em Moscou, Pequim ou Minsk.