A expressão latina original é “quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”, que significa “até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?”, dita pelo cônsul romano Marco Túlio Cícero, em 63 a.C., referindo-se a um ato de denúncia contra a conspiração pretendida pelo senador Lúcio Sérgio Catilina, que logo de início destila “até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? (...) Não vês que tua conspiração foi dominada pelos que a conhecem?” Assim, Cícero antagonizou Catilina. Na década de 1970, o piauiense Waldyr Arcoverde, residente no Paraná, como ministro da Saúde programou a primeira vacinação em massa contra a poliomielite em todas as crianças brasileiras. Albert Sabin, criador da atual vacina, casado com brasileira e estando em visita ao Brasil, manifestou-se: “o Brasil é um país de tamanho continental e tem fronteiras com dez países, o que impossibilitará o sucesso deste programa”. Porém, Arcoverde conseguiu e Sabin, o que é próprio das pessoas sábias, retratou-se: “peço desculpas por ter duvidado do sucesso da campanha”. Em 9 de agosto passado, o então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Edson Fachin, barrou um novo pedido de autorização para o pronunciamento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, sobre a vacinação nacional contra a poliomielite e a multivacinação de 2022 (acesse Google e digite “Fachin proíbe pronunciamento de Queiroga sobre vacinação”). O pronunciamento ocorreria em cadeia nacional (rádio e televisão). Para a decisão, Fachin justificou que a legislação eleitoral proíbe “publicidade institucional a três meses das eleições”. A primeira proibição ocorreu em 28 de julho. A Secretaria de Comunicação fez uma petição em agosto para que o TSE reconsiderasse a decisão, argumentando que a campanha nacional preenchia os requisitos de “gravidade e urgência” e tinha a “finalidade de promover a educação sanitária”. Domingo passado, 18 de setembro, seria o Dia Nacional da Vacinação em Massa, o que não ocorreu. Vimos e ouvimos pela grande mídia que “nunca houve um número tão baixo de crianças vacinadas”. É provável que o brasileiro desavisado acredite que “esta é apenas uma das falhas na área da saúde do atual governo”. O que me preocupa: a meia-verdade é mais perniciosa que a mentira. Será que este era o objetivo do TSE ao proibir o programa de vacinação em massa? Todo ser humano, em algum momento, possui falhas em suas decisões, ou seja, “cada um nasceu com uma cota de erro para ser gasta”. Porém, fatos não eventuais, repetitivos, traduzem não apenas uma tendência, mas sim uma rotina de conduta na tomada de decisão que, no caso, é ainda mais importante, porque é um julgamento. Esta situação demonstra que pessoas podem ter o saber, que é o conhecimento obtido através de livros, internet, bibliotecas ou professores, mas não têm a sabedoria, que sempre implica em promover e decidir pelo bem comum. Pelo exposto, pergunt “quosque tandem, TSE, abutere patientia nostra?”
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM
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