ARTICULISTAS

Sal na ferida

Carlos Alberto de Oliveira
Publicado em 14/07/2014 às 10:04Atualizado em 19/12/2022 às 06:54
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Eu não entendo a mídia brasileira. Sinceramente.

Certa vez, o Brasil aplicou na Argentina uma goleada de 3X0, que, considerada a rivalidade, foi humilhante. Curiosamente, os três maiores jornais de Buenos Aires: Olé, Clarín e La Nacion, não dedicaram mais do que uma discreta tira de suas primeiras páginas à derrota sofrida.

No Brasil, porém, as coisas são bem diferentes. A nossa derrota – e bota derrota nisso! – é exaustivamente exibida aqui como se tortura fosse, tendo realçada repetidamente pela televisão a sensação de rotunda dor.

A minha indignação trazida na primeira linha deste texto se justifica pelo comportamento sadomasoquista da nossa TV. Desde o final trágico do trágico jogo contra a Alemanha, argentinos se apresentam diante das câmeras cheias da nossa audiência para as suas provocações infantis e de péssimo gosto, dizendo-se nossos “papás” e que Maradona é “mejor que Pelé”.

Guardados os devidos limites da sandice de um povo que inventa heróis e mata os que existem, desde que não sejam argentinos, as chacotas portenhas vêm num momento em que o povo – sobretudo as crianças – está vulnerável e fragilizado emocionalmente. Eles elaboram as provocações – algumas moralmente ofensivas – e os repórteres lhes dão os microfones necessários para a sua divulgação. Isso nunca aconteceria na Argentina. Nunca.

Jogo é jogo. Deve ser encarado como uma diversão, e não como uma batalha a mais na guerra pela taça. Os valores humanos e sociais estão muito acima disso. Entretanto, o sofrimento que a derrota impõe deve ser respeitado, se não pelo comportamento de fé cega de alguns, pelos que têm nas mãos a escolha do que vai ou não para o ar.

A imprensa livre é um dos principais pilares de sustentação da democracia moderna e a boa escolha do que vai colocar dentro dos lares brasileiros é a sua responsabilidade de excelência.

As emissoras, nas figuras de seus repórteres e de seus diretores de jornalismo, precisam urgentemente rever seus padrões de ética.

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