O ato silencioso de ouvir é um dos gestos mais carinhosos que podemos exercer. Simplesmente ouvir. Ouvir com atenção, mesmo que se discorde do que esteja a dizer o interlocutor. É que todos têm uma necessidade ardente de ser ouvido. Existem hoje até serviços telefônicos destinados apenas ao exercício do ouvir, de permitir um desabafo do
próximo, mesmo desconhecido, mas próximo como irmão. Ouvir é seguramente um gesto de máxima elegância.
Além de poder ser também um ato de caridade, é pelo ouvir que geralmente aprendemos mais. Mesmo os surdos ouvem quando leem, quando decifram, quando dão atenção à mensagem alheia. Ouvir traz paz ao coração, à alma.
Ouvir é sobretudo gesto de sabedoria. Afinal, nunca se contou uma história ou mesmo uma fábula de algum sábio em que ele não tivesse ouvido, e refletido, antes de falar. Até para aconselhar deve-se exercer o ato de ouvir, e ouvir atenciosamente. É tão importante que, muitas vezes, a oitiva de uma opinião alheia desvela uma perspectiva não antes imaginada e que singelamente já estava diante dos olhos que não viam. Ouvir a si mesmo é relevante, ao silêncio, ao som dos pássaros, das músicas, dos conteúdos das letras. Desde o ninar já aprendemos a ouvir. Interromper uma fala é grosso.
Não é em vão que a natureza nos deu dois ouvidos e uma boca, diz o dito popular.
Pois então. Certa feita, numa pequena cidade interiorana, um juiz recebeu um pedido extraordinário. Era para autorizar o casamento de uma menina de doze anos de idade. Exatamente doze anos de idade. Ou seja, aquele matrimônio a ser legitimado era de uma criança, embora fisicamente não tivesse essa aparência, apurou-se.
O pedido foi aviado pela mãe, sua representante legal, pai já falecido. Também comungava daquela pretensão, naturalmente, o noivo. Junto com o pedido veio o atestado do médico dando conta de que a menina estava grávida já de dois para três meses. Bem como atestava que fisicamente era desenvolvida, capaz de suportar o casamento. Juntou-se também prova de que o pretendente ao casamento, um rapaz de vinte e um anos, trabalhava como vaqueiro e tinha à sua disposição uma casa onde residia, na fazenda do patrão, perto da região que habitava a postulante.
Todos perplexos, considerando até a urgência apontada para o caso, logo foi designada a audiência de instrução e julgamento. Nela ouviu-se a menor, a sua mãe que estava mesmo disposta a permitir o ato, elogiando o rapaz pretendente, e o jovem que si dizia disposto a assumir com responsabilidade o matrimônio. Também o patrão do rapaz nubente, confirmando sua condição de honesto e trabalhador. De qualquer forma, a todos parecia um desatino, autorizar, pela lei, na casa da Justiça, o casamento de uma criança. Ouvido o digno e zeloso promotor de Justiça, muito atento à causa, lançou fundamentado parecer contrário ao deferimento, como era por todos de se esperar. Àquele tempo não havia ainda o Conselho Tutelar. Já havia divórcio.
Cabia então ao juiz o peso da urgente decisão.
Tudo parecia tão fácil para dizer não, tão lógico, mas havia algo esquisito no ar. Estava difícil conciliar a lei com a razão social e o bom senso. Faltava algo a se esclarecer para definir a questão.
Parou o juiz, pensou, lembrou que é sábio ouvir, especialmente o interessado, ainda que fosse uma criança. Em gesto de humildade, mandou chamar de volta a menina que pretendia a autorização judicial para o casamento civil de menor de quatorze anos. Ela veio. Sentou-se novamente na posição inferior que ficam as pessoas a serem inquiridas no fórum do interior, no caso, era no salão do júri, e destinou sua atenção à pergunta do juiz.
- Poderia a senhorita explicar por que um juiz deveria autorizar o casamento de uma menina de doze anos?
Quando ela respondeu com a clareza da luz solar e com a pureza da água que brota da mina:
“- Seu juiz, nós veio aqui para tentar fazer a coisa certa. Se ocês deixá, nós faz, se ocês não deixá, nós junta.” E, na sua inexperiência, ainda balançou os ombros. Então, calou-se o fórum.
Com diversas ponderações, em consideração ao zelo ministerial, o casamento foi autorizado, afinal, a menina ganhou um marido que já virava tutor, o feto ganhou um pai já legalmente definido, o direito a pensão era objetivo caso o casamento não vingasse. E, afinal, o que estava feito já não mais estava por fazer. O promotor não recorreu. Até onde se soube, união consistente.
Felizmente usou-se do importante gesto de ouvir. Simplesmente ouvir, sem subestimar ninguém.
Que exercitemos o ouvir, sempre, para sempre, para crescer, para bem viver, para amar, compreender e menos errar.