Ter consciência implica em ser responsável e não se entende responsabilidade sem assumir alguma coisa ou alguém. Não é apenas uma resposta de minha parte. É muito mais do que isso. É uma resposta que envolve um compromisso. O termo inglês que traduz responsável é "sponsor". Ora, "sponsor" reflete uma riqueza etimológica muito grande. É aquele que assume. ("Sponsare" é termo latino, daí "esposo", "desposar", etc.)
Cada um de nós é centro e fonte de efeitos psicológicos. Para os outros nós somos sempre resposta de alguma coisa. Alguém está sempre esperando uma resposta nossa. Está sempre nos olhando. "Nos vigiando." É muito sério isso. É esse o drama do testemunh ser olhado, ser vigiado. Seja o pai, a mãe, o médico, o padre, o professor, o negociante, o prefeito, o amigo, o vizinho, todos somos vigiados. É esse o drama de todo aquele que assume alguma coisa. Somos vigiados em nossas tarefas, religiosas ou puramente humanas. Alguém está sempre de olho em nós. E, o que é pior, não perdoa nada.
Pode ser que você se julgue bastante ajustado, certinho em seu comportamento. Não estou julgando se é pretensão sua ou se é autenticidade. Todos nós temos capacidade para camuflar ou disfarçar nossos conflitos interiores. Seja como for, o problema permanece para todos nós: que tipo de resposta eu sou para os outros? Minhas atitudes externas se identificam com o que eu sou internamente?
Agora me pergunt devo ser resposta de quê? Se sou jornalista, médico, padre, pai, professor, negociante, que eu seja o que for, se sou capaz de refletir, devo ser resposta de quê? Alguém já me disse que, se refletir nisso, acaba entrando em "baixo-astral". Além de "baixo-astral" ser um termo ridículo, ele traduz fuga, ausência de resposta, incompetência para assumir.
Para sair desse estado que se costuma chamar hoje de angústia existencial, só existe mesmo um caminho, uma opçã ASSUMIR. Assumir a mim mesmo. Assumir minha família, como todos os seus problemas. Assumir meus amigos, com tudo o que eles têm de complicado, com o modo de ser deles que, às vezes, me irrita. Tenho que assumir o defeito e o temperamento. Tenho que assumir a doença. A insistência dos outros. Tenho que assumir minha profissão e minhas escolhas. Tenho que assumir meu estado de vida, o estado que consegui na vida ou que me permitiram conseguir. Assumir aquele que está ao meu lado, o que me é terrivelmente difícil e desgastante.
O ato de assumir exprime, então, uma grandeza extraordinária. É muito mais do que uma aceitação. Supõe lucidez e coragem. É uma opção que liberta.
Às vezes, nos queixamos de que nossa vida não tem sentido. Mas, afinal de contas, talvez não tenhamos assumido nada, nem sequer nossa própria vida.