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Superstições

As superstições são criações limitantes da vida serena, sadia e inteligente. Geralmente são impingidas...

Ricardo Cavalcante Motta
Publicado em 06/05/2017 às 23:27Atualizado em 16/12/2022 às 13:32
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As superstições são criações limitantes da vida serena, sadia e inteligente. Geralmente são impingidas nas crianças pelos adultos que promovem a criação do infante. Por isso passam a ter peso de verdade, mas podem causar sofrimento por toda a vida. Crê-se naquilo e pronto, sem cobrar lógica. Há até pessoas com conhecimento científico que se sucumbem a elas. Dizem que chinela virada dá azar, que gaveta aberta dá azar, que levantar da cama apoiando primeiro o pé esquerdo dá azar... Os invejosos, quando veem flor bonita da primavera no jardim do vizinho ou um belo pavão, cuidam logo de dizer que dá azar. Ocorre até quem passe a crer ser o próprio destinatário do azar. A propósito. Um destes, da alma tão santa e comportamento tão ilibado, que ganhou dos amigos o apelido carinhoso de “Primo de Jesus Cristo”, colocou na cabeça que toda vez que ele assistia ao jogo do seu querido time de futebol, indo ao campo, ou pela TV, o time perdia. E ficou tempos ouvindo os jogos timidamente no radinho. Sofria, mas não via. Até que um dia revelou o fato a um dos amigos. Este, com sinceridade – porque amigo de verdade é franco –, chamou-lhe a atenção. Questionou-lhe da incoerência do ato. Ao mesmo tempo, o mais humilde, sem nenhuma autoestima, ao mesmo tempo o mais soberbo dos homens. E explicou. O mais humilde em imaginar que guarda em si todo o peso do infortúnio a ponto de contaminar o time do coração. E o mais soberbo a ponto de pensar que quando da tramitação do jogo os céus iriam parar para reparar se o sujeito, o mais azarado, estaria vendo o certame para então definir o resultado. Era de se achar de relevância sobrenatural. Muita pretensão. Como sempre foi mesmo humilde, sentiu-se profundamente magoado pela fala do amigo.  Reclamou a outro amigo que fora ferido com lança pontuda. Após, refletindo melhor, porque soberbo jamais quis ser, voltou certa vez ao amigo para agradecer a crítica. Confessou que tirou de si aquela imbecil superstição, que deve ter nascido por algum trauma de educação, e buscou coragem para voltar a ver seus jogos ao vivo. Daí, quantas alegrias já teve em face disso... Foi mais razoável se sentir apenas mais um simples mortal. Aliviou-se da submissão insana à superstição imbecil e infundada. Aliás, é cuidado que todos devem ter.

(*) Juiz de Direito

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