ARTICULISTAS

Três revelações na 1ª quarta-feira de dezembro - Parte I: a face de Deus

Para quem, como eu, sempre manteve acesa curiosidade pelos assuntos celestes, a primeira quarta-feira de...

Publicado em 11/01/2010 às 00:09Atualizado em 20/12/2022 às 08:36
Compartilhar

Para quem, como eu, sempre manteve acesa curiosidade pelos assuntos celestes, a primeira quarta-feira de dezembro foi um dia de revelações. Logo pela manhã, quando nem bem havia terminado com a manteiga no pão, já me dispus em luto em nome da voz do insofismável Lombardi; sim, aquela mesma, das tardes de domingo do Sílvi – É com você Lombardi. – Pois não, Patrão...   Confesso que sofri um bocado com a notícia, afinal, aquela voz sempre soou como uma trilha sonora da minha infância: era eu, menino, a brincar pelo chão da sala, era minha avó, novamente menina, a tricotar pelo sofá e era o Lombardi, escondido na televisão, a nos espionar. O que explica todo este meu receio, afinal, em última instância, o desaparecimento daquela voz representa, de algum modo, a dissipação de parte da minha infância.  Além do mais, sempre achei que se fosse o caso de Deus possuir alguma voz, ela deveria ser igualzinha à do Lombardi: o mesmo timbre, a mesma afinação, o mesmo poder de chocar a atenção dos ouvidos e, sobretudo, a mesma face misteriosa. Talvez por isso, nunca me tenha sido possível impedir – malgrado meus esforços – que as mãos executassem o sinal da cruz, todas as vezes que sua voz me apanhava desprevenido.   Durante décadas, acreditei que o Lombardi tinha a mesma cara de sua voz, ou que nele, ambas, cara e voz, constituíssem uma e mesma coisa. Mas, como já lhes disse, o dia foi mesmo de revelações, pois, para bem ou para mal, a notícia fúnebre da morte de sua voz trouxe consigo a expressão de um semblante. Não me avisassem e nunca imaginaria que o rosto estampado nos jornais tinha como dona, a voz do Lombardi; para ser sincero, ainda agora me custa um pouco ligar a cara à voz; e digo mais, não vai ser tarefa nada fácil – senão impossível – vincular aquela fisionomia, que sempre me aparecerá estranha, à intimidade de meus mais tenros anos. Pudesse eu escolher e, certamente, optaria por um enterro menos imagético e mais sonoro para o pobre do Lombardi, alguma coisa mais adequada para quem somente existiu na frequência de suas cordas vocais, algo semelhante à impressão de um simples abaixar do volume.   Mas, se a morte resolveu interpor uma imagem entre nós e a voz do Lombardi, ao menos é possível agarrar o lado bom da coisa, pois, se, realmente, for o caso de qualquer semelhança entre sua voz e a voz de Deus, isso significa que, de agora em diante, talvez estejamos mais perto de conhecermos os traços de nossa criação.

Assuntos Relacionados
Compartilhar

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por