ARTICULISTAS

Trotes nas universidades: carnaval de insanidade

Tão antigo quanto à abolição da escravatura, o trote nas universidades, sobretudo do sudeste brasileiro, insiste em perdurar nos meandros acadêmicos, maculando o momento sagrado que é a matrícula/ing

Julio C. O. Bernardo
Publicado em 15/02/2010 às 17:26Atualizado em 20/12/2022 às 08:06
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         Tão antigo quanto à abolição da escravatura, o trote nas universidades, sobretudo do sudeste brasileiro, insiste em perdurar nos meandros acadêmicos, maculando o momento sagrado que é a matrícula/ingresso em um curso de nível superior.

        O trote é o que há de mais ridículo e ultrapassado nas paragens universitárias brasileiras. Tintas jogadas no rosto, roupas rasgadas, farinhas, frutas e ovos podres, esterco, merda humana, piche, lama e outras substâncias do gênero ornamentam esse ritual infantil, sacana e babaca.

      Atrevo-me a dizer que há algumas décadas talvez o trote poderia ter sido um pouco mais ingênuo, festivo ou até mesmo considerado um elemento de boas-vindas, mas as mortes e as mutilações já registradas nas universidades de nosso país nos últimos anos, sobretudo em universidades paulistas, levaram-nos a crer que o trote é uma moléstia que precisa ser extirpada dos ambientes acadêmicos. Começa-se com uma tintinha na testa e uma agitação da galera de veteranos, mas o final desses eventos quase sempre acaba sendo os prováveis e já bem comuns comas alcoólicos. Trote é, enfim, como o lança-perfume. Já teve seu glamour no passado, mas hoje não é nada mais que algo a se lamentar.         Em tempos de paz, de necessidade exacerbada de paz, gestos tão desrespeitosos como esses trotes que vemos pelas avenidas, cruzamentos e nas próprias portas de nossas universidades traduzem atitudes insanas de violência. Frequentemente assistimos a relatos de muitos de nossos jovens universitários afirmando que “aceitam” o trote porque no ano que vem poderão se vingar... Eis aí o início de um ciclo cretino e barbárico. O trote é em sua síntese a opressão disfarçada de alegria, a tortura travestida de solidariedade. No nível acadêmico não deveria caber tanta primitividade ou falta de consciência. Aliás, conscientização não anda sendo cultivada como se deve por muitas instituições de educação desse país.        A vida acadêmica, que é um estágio seleto de estudo nesse país, merece outros enfoques de boas-vindas. O indivíduo que termina seus estudos de educação básica e se prontifica a ingressar em um curso de graduação em busca de uma realização e de um ideal profissional deve ser tratado, no mínimo, com a dignidade que o ato requer. Bastam os trotes que andam fazendo nas cuecas e nas meias com o dinheiro público. Bastam as fortunas que gastam com carnavais mixurucos desse país afora (faltando remédios e servidores na saúde pública). O trote é o carnaval parvo dos veteranos fantasiados de algozes e dos calouros fantasiados de mendigos etílicos, pulando nos salões e bailes da ignorância e da extrema falta de bom senso.         Abaixo ao trote. A intenção não é transformar nossa sociedade num castelo de puritanos ou moralistas, mas ninguém precisa acreditar que para ser ou estar alegre é preciso ser ou estar idiota.    

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