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Uberaba sem deputados

Nilson de Camargos Roso
Publicado em 21/10/2022 às 20:18Atualizado em 16/12/2022 às 00:28
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Uberaba está sem deputados estaduais e federais. Esta situação é consequência. Mas onde estão as causas? Simples. Faltaram ações estratégicas. Há, pois, uma síndrome de incompetência política, com vários sinais e sintomas evidentes. Façamos uma retrospectiva do pouco que presenciei, citando 5 fatos.

Década de 1980: nesta década, o deputado federal por Uberaba, Edilson Lamartine Mendes, pelo então PFL (Partido da Frente Liberal), conseguiu legenda para sua reeleição. Outro uberabense, sendo impossível conseguir a mesma legenda pelo mesmo partido em Uberaba, recorreu a Belo Horizonte, conseguindo. Edilson obteve boa votação fora de Uberaba, pois já era deputado, e o segundo candidato, neófito, obteve boa votação na cidade. Conclusã nenhum deputado foi eleito. Este fato era previsível. Onde esteve a ação estratégica do partido e da cidade?

Meados de janeiro de 1995: como diretor da então FMTM, tentávamos a transformação da mesma em universidade federal. Solicitamos ao deputado federal por Uberaba, que estava findando o seu mandato naquele mês, para ler duas folhas referentes às densidades histórica e científica da FMTM no plenário da Câmara dos Deputados, que iria discutir e votar a proposta no dia seguinte, para transformar em universidade três faculdades: Escola Federal de Engenharia de Itajubá, São João Del Rey e FMTM. Durante a sessão, enquanto outros deputados se manifestavam sobre as duas outras faculdades, nosso deputado ficou perambulando pelo plenário, com as folhas na mão, e não se manifestou. Eu estava dentro do plenário e presenciei.

Como explicar esta incrível e inesperada ação de descaso e negligência?

1997: neste ano, como diretor da FMTM, visitei dois deputados federais, um de Uberaba e o outro de Uberlândia, solicitando a cada um a verba de R$200.000,00 para o então Hospital

Escola da FMTM. No ano de 1998, a FMTM recebeu R$100.000,00 do deputado Zaire Rezende, de Uberlândia, e nada recebeu do deputado de Uberaba. Como explicar tal ação de descaso e negligência?

2022: nestas eleições de outubro, faltaram pouco mais de 6.000 votos para que um deputado federal se reelegesse por Uberaba. No entanto, o mais grave, foi um tio deste deputado ser também candidato, obtendo mais de 8.000 votos, o que impediu a reeleição. Conversei com familiar de ambos, onde explicações familiares (mágoas, ressentimentos) sobre o fato foram dadas, mas nenhuma justificativa foi apresentada. Lembro que justificativa é condição muito acima da explicação. Enfim, houve uma ação mal pensada.

No governo petista: Gilmar Machado era o líder do governo na Câmara dos Deputados, enquanto o prefeito de Uberlândia era Odelmo Leão Carneiro, cujo partido era opositor ao governo petista. Enviou acima de 1 bilhão de reais para obras gigantescas, através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para as mãos do então prefeito, numa ação perfeita, onde o bem comum foi alcançado. Pergunt pelo comportamento dos nossos políticos de Uberaba, o deputado federal enviaria a vultosa verba ao prefeito de Uberaba, que era de oposição?

Acredito que o deputado diria: “não vou colocar azeitona na empada do meu adversário”. Desejaria que eu estivesse errado neste raciocínio.

Conclusã quando as questões pessoais são colocadas como prioridades, quem paga o tributo é o interesse da coletividade. É o chamado espírito de EUquipe, onde, no choque da maré contra a rocha, quem sofre são os mariscos (cidadãos). É preciso desarmar a indolência, a negligência e a autocracia, dando lugar ao empenho, ao compromisso e ao envolvimento. Einstein nos mostra um caminho para os políticos de Uberaba: “é insano fazer sempre as mesmas ações e esperar resultados diferentes”, ou seja, o fruto do trabalho surge quando se planta bem. Uberaba não colheu frutos pois nem sequer plantou, como estas ações desastrosas acima descritas, que como um bumerangue, volta sobre a cabeça do político. A política é como o esporte coletiv todos têm que jogar para o time, no caso, a cidade. É necessário haver um aglutinador de ideias e de pessoas, de modo que as vaidades sejam colocadas de lado. Simples na teoria, ou seja, o diagnóstico é fácil, mas o tratamento é difícil quando os egos estão inflados. Cabe à SCO (Sociedade Civil Organizada) criar estratégias de aglutinar pessoas e ideias, com a união dos políticos, lembrando o mineiro que diz: “cateto fora da manada vira comida de onça”. Ninguém muda seu modo de agir ou de pensar enquanto é forte, mudando seus conceitos quando enfraquece. Uberaba, enfraquecida, para melhorar, precisa mudar sua cultura (conjunto de tradições, hábitos, conhecimentos, experiências, normas e regras de um grupo social), pois “a cultura come a estratégia antes do café da manhã” (culture eats strategy before breakfast. Peter Drucker)

Nilson de Camargos Roso

Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM

n.roso@me.com

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