Em uma cidadezinha do interior eles se conheceram. Ela saindo da puberdade e entrando na adolescência
Em uma cidadezinha do interior eles se conheceram. Ela saindo da puberdade e entrando na adolescência, ele saindo da adolescência indo para a vida adulta.
Ela tinha os cabelos claros, lisos, compridos. Era linda. Um cruzamento de olhares foi o suficiente para tocar os corações de ambos.
O tempo foi transcorrendo de forma tranquila e os dois nunca foram além daquelas fugazes trocas de olhares ou, quando muito, um bailinho aqui, outro acolá. Dançavam e quando os rostos se tocavam, levemente, os corações disparavam e mãos trêmulas suavam. Ondas de sensações inexplicáveis aconteciam e surgia até aquele friozinho na barriga.
O tempo passava, a vida envelhecia.
O Brasil vivia tempos negros. Uma ditadura militar instalada no poder apertava, cada vez mais, os movimentos sociais, a imprensa, o rádio a televisão. Tudo era censurado.
Nossos dois personagens continuavam a se olhar, a dançar e entrou um novo componente em suas vidas. A música.
Ouviam os mesmos cantores, viviam as mesmas emoções com Chico Buarque, Edu Lobo, Vandré, Caetano, Gilberto Gil, Elis Regina, Nara Leão, Bethânia, Gal Costa e tantos outros.
Junto com a música passaram a ter a mesma visão crítica sobre a ditadura. Ele mais impulsivo, mais radical e ela mais pé no chão, equilibrada.
Marcante em suas vidas, neste momento, foi quando ele deu a ela, de presente, um livr “Crimes de Guerra no Vietnã”. Era um libelo sobre tudo que os Estados Unidos estavam fazendo naqueles confins do Sudeste Asiático.
As relações entre ambos foram se solidificando. Sem paixão avassaladora, que nenhum dos dois era chegado aos dramalhões mexicanos. Uma relação de carinho e afeto foi sendo construída, mas, devagarzinho, sorrateiramente.
Até que um dia ele desapareceu. Sumiu. Escafedeu-se.
E aquela linda menina da cidadezinha do interior continuou sua vida, estudando, lecionando, ouvindo as músicas que lhe traziam tantas lembranças, de momentos de pura ternura.
Ele, sumido, sabe Deus pra onde, também mantinha viva a chama daqueles olhares cúmplices, daquelas mãos trêmulas encostadas em seu coração e, de quando em vez, cantava as músicas que pareciam pertencer somente a ele e àquela menina linda que ficara para trás.
O tempo, implacável, continuava envelhecendo a vida. E nesta situação de lembranças e distanciamento, anos foram consumidos.
Até que um dia ele apareceu, novamente, na cidadezinha do interior.
Os olhares voltaram a se cruzar e toda aquela carga emocional, represada por tanto tempo, transformou-se em uma intensa necessidade mútua. Já era, então, impossível um viver sem o outro.
Daí em diante os dois deram-se os braços e foram para a praça, como na canção, e se casaram, e cantaram, e trabalharam, e tiveram três filhos, e vão ter netos, e estão juntos a exatos trinta e seis anos.
E aqui termina a história de amor que começou em uma cidadezinha do interior de Minas Gerais e viajou por Goiás, depois Belo Horizonte e continua aqui em Uberaba.
Bacana, não?
Ah! O nome dela, ia me esquecendo, é Suely, uma mulher de valor. Ele, sou eu.
(*) advogado