Para além da encenação provinciana e da grotesca tentativa pública de afirmação de “otoridade”, dois tipos de motivações reais clareiam o sentido do frenesi denotado no olhar do presidente da Câmara ao proferir seus brados de censor raivoso e medieval contra uma obra artística, como aconteceu na terça-feira, 6 de junho. A primeira motivação foi muito evidente. Mostrou-se perceptível que o edil-presidente saboreava ali a existência de oportunidade especial para produção de imagens de suas bravatas rasas, que, colhidas por assessores e divulgadas via mídias sociais aos destinatários certos, lhe rendessem os aplausos garantidores de boa quantidade de votos em círculos onde viceja o moralismo de fachada e, portanto, onde esses gestos típicos de uma cruzada obscurantista encontrem eco e apoio. Outra razão mais de fundo, provavelmente motivadora da altercação verbal e pseudomoralizadora do edil, da qual certamente ele próprio e outras pessoas que se escandalizam com tais conteúdos não se dão conta, é a inconsciente percepção de imagens de corpos humanos em cenas absolutamente não sexualizadas, como se fossem inapelavelmente portadoras de um ofensivo apelo desse tipo. Esse impulso de condenação imediata, nesses tempos de crescimento de um moralismo tosco, chega por vezes à beira de um ridículo e passional estado de pânico por parte dos que assim interpretam. Esse comportamento remete de pronto à reação da caricata personagem televisiva que “só pensa naquilo”. Entre as repercussões da cena patética do edil houve até mesmo quem, dirigente de agremiação partidária de direita, afirmasse ser pornografia a obra completamente desprovida desse teor, pelo simples fato de conter órgãos genitais humanos postos a descoberto. Por sua vez, consoante ao seu perfil ideológico conservador, o Poder Executivo, no âmbito da própria Fundação Cultural, intimidou-se imediatamente ante a atitude truculenta do edil-presidente e exerceu de pronto a censura reclamada. E do gabinete da prefeita saiu uma espantosa e confusa tentativa de negar os fatos ocorridos, levantando questões que passaram ao largo do que foi central no caso. Por fim, o papel de fiscalizar dos atos do Executivo, ao contrário do que procurou se amparar o vereador autor da rebordosa inquisitória, definitivamente não inclui o exercício de tais zelos proibitórios ao que lhe pareça ou lhe convenha parecer como carente de pudor. Não cabe em absoluto confundir ações necessárias pela prestação dos serviços públicos municipais de qualidade e pelo devido uso da máquina pública, com o estardalhaço fundamentalista que teve o edil-presidente.
Lauro Guimarães
Engenheiro Civil, ex-vereador e membro do PT