Natural de Uberaba, Thiago Calçado começou a carreira como chargista do Jornal da Manhã, em 1999, aos 17 anos, e hoje acumula trabalhos em produções internacionais como “Pinóquio” e “A Fuga das Galinhas”
Natural de Uberaba, o animador Thiago Calçado começou a trajetória profissional no Jornal da Manhã, onde trabalhou como chargista em 1999, aos 17 anos. Mais de duas décadas depois, ele integra a equipe de “O Bosque Selvagem”, animação em stop-motion do estúdio norte-americano LAIKA, que estreia nos cinemas brasileiros em 29 de outubro e já aparece entre as produções cotadas para o Oscar 2027.
Em entrevista ao JM, Thiago relembrou o início da carreira, quando levou histórias em quadrinhos que produzia para serem publicadas no jornal. Durante um ano, trabalhou com charges políticas e chegou a ter três desenhos publicados na primeira página. “Eu devo bastante ao Jornal da Manhã, que abriu as portas para mim ali no começo. Se eu tivesse ouvido um não, poderia ter mudado toda a história”, afirma.
Depois da experiência no jornal, Thiago se mudou para São Paulo para cursar Cinema na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). O interesse pela animação surgiu quando um amigo deu movimento aos personagens que ele desenhava. “Na hora que eu vi os meus personagens se mexendo, foi um encanto. Fiquei embasbacado. Falei: ‘Eu quero trabalhar com isso para sempre’”, conta.
A partir daí, passou a fazer cursos, participar de workshops e frequentar festivais de cinema e animação para se especializar. Os trabalhos realizados no Brasil abriram caminho para oportunidades em produções internacionais.
Ao longo da carreira, Thiago participou de filmes como “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), “Ilha dos Cachorros” (2018), “Pinóquio” (2022) e “A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets” (2023).
Em “Pinóquio”, dirigido por Guillermo del Toro, o animador trabalhou com personagens de diferentes características, incluindo animais de quatro patas. A experiência contribuiu para que, em “O Bosque Selvagem”, ele se dedicasse principalmente à animação de cavalos.
Segundo Thiago, reproduzir os movimentos dos animais exige atenção à anatomia e à mecânica corporal. A posição do quadril em relação ao tronco e à cabeça, por exemplo, precisa ser estudada para que os movimentos sejam convincentes. “Eu pedi para continuar animando animais de quatro patas porque achei desafiador. Consegui me aprofundar ainda mais na mecânica dos cavalos”, explica.
O trabalho em diferentes estúdios também exige adaptação aos materiais e às técnicas utilizadas em cada produção. Enquanto os bonecos de “A Fuga das Galinhas” são feitos de massinha, os da LAIKA utilizam silicone. Em “Pinóquio”, a construção dos personagens envolveu resina e metal.
Para Thiago, a animação combina criatividade e conhecimento técnico, além de exigir colaboração entre profissionais de diferentes culturas e nacionalidades.
“O Bosque Selvagem” é produzido pela LAIKA, estúdio conhecido por animações como “Coraline e o Mundo Secreto” (2009) e “ParaNorman” (2012). O longa utiliza a técnica de stop-motion, em que bonecos e cenários são movimentados manualmente e fotografados quadro a quadro para criar a ilusão de movimento.
Thiago acompanhou etapas iniciais do projeto, quando começaram os testes dos esqueletos dos bonecos e a preparação dos personagens. De acordo com ele, o processo envolve diversas fases de experimentação, incluindo a construção interna dos bonecos, as roupas e os cabelos.
Esse cuidado ajuda a explicar o tempo necessário para concluir a produção. O filme levou cerca de cinco anos para ser realizado, período que incluiu os impactos da pandemia de Covid-19. A quantidade de personagens e as sequências de ação também contribuíram para a complexidade do trabalho. “É um sonho para quem é animador de stop-motion trabalhar em um estúdio dessa grandeza, com esse nível de realismo e cuidado em cada detalhe”, afirma.
Depois de anos de trabalho, acompanhar o lançamento representa uma nova etapa para quem participou da produção. Thiago compara a experiência a ver um filho ganhar o mundo, após um longo período de dedicação.
Durante a entrevista, Thiago também comentou o avanço da inteligência artificial (IA) na produção de conteúdo artístico. Para ele, o trabalho artesanal do stop-motion evidencia a importância da participação humana na criação de personagens e histórias.
O animador ressalta que a construção de uma personalidade envolve observação do comportamento humano, estudo e atenção a detalhes que ajudam o público a se identificar com os personagens. “A animação vem de alma, de dar alma, de sopro de vida. O stop-motion é cheio disso, é cheio de vida, porque é feito com mãos”, disse.
Thiago afirma que não considera a inteligência artificial necessariamente uma adversária, mas a enxerga como uma ferramenta. Na avaliação dele, o tempo dedicado à produção e o trabalho coletivo são características que diferenciam a técnica artesanal.
Segundo o animador, cerca de 500 pessoas participaram da produção de “O Bosque Selvagem”. Ele considera que a experiência de reunir profissionais com diferentes conhecimentos e culturas é uma das partes mais importantes do trabalho.
Embora a disputa pelo Oscar 2027 ainda esteja no início, Thiago acredita que “O Bosque Selvagem” tem potencial para conquistar a premiação. Para ele, além do aspecto visual e da história, o momento de lançamento pode contribuir para a repercussão do filme, diante das discussões sobre inteligência artificial e criação artística. “Eu posso estar tendo um otimismo exacerbado, mas acho que vai ganhar o Oscar. Se eu tivesse que apostar dinheiro, eu apostaria”, declara.
Dirigido por Travis Knight, o longa acompanha Prue McKeel, uma adolescente que parte em uma jornada pelo Bosque Selvagem ao lado de Curtis Mehlberg depois que seu irmão mais novo é levado por um bando de corvos. A animação chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro.
Ao falar sobre a própria trajetória, iniciada com a publicação de desenhos em Uberaba, Thiago deixa um conselho para quem pretende seguir carreira artística: persistência, dedicação e cuidado para não transformar a trajetória dos outros em parâmetro para a própria. “É não desistir, trabalhar constantemente e amar o que faz. E, principalmente, não se comparar com os outros nas redes sociais, porque cada um está em uma batalha diferente, em uma corrida diferente”, finaliza.