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Bebê de Uberaba é o primeiro do Brasil a nascer após tratamento contra doença rara

Após perderem a filha para a mesma condição, casal de médicos de Uberaba celebra nascimento que pode ampliar o conhecimento sobre a GALD no país

Sarah Parro
Publicado em 06/05/2026 às 16:41Atualizado em 06/05/2026 às 16:42
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O tratamento da GALD quando iniciado de forma adequada aumenta as chances de sucesso de até 95%. (Foto/Divulgação)

O tratamento da GALD quando iniciado de forma adequada aumenta as chances de sucesso de até 95%. (Foto/Divulgação)

O nascimento de Bento Vasconcelos Dutra colocou Uberaba no centro de um caso inédito para a medicina brasileira e transformou uma história marcada pela dor em um símbolo de esperança. Filho do médico oncologista Raul Dutra e da médica pediatra Isabela Vasconcelos, Bento é o primeiro bebê do Brasil a nascer após um protocolo completo de tratamento intrauterino para prevenção da Doença Hepática Aloimune Gestacional (GALD), condição rara que pode causar insuficiência hepática ainda na vida fetal ou logo após o nascimento. 

A nova gestação foi cercada de cuidados, mas também de medo. Isso porque o casal já havia enfrentado a perda da filha do meio, Betina, vítima da mesma doença. Mas a família transformou a dor e o luto em trabalho, com a criação do Instituto Betina, criado em Uberaba, no Hospital Hélio Angotti, para acolher pacientes e familiares em situação de vulnerabilidade. 

Por ser a GALD uma doença prevalente, uma nova gestação poderia seguir o mesmo caminho. Por isso, a família buscou novas possibilidades com um tratamento inédito e preventivo.  

“A Betina mudou tudo na nossa vida. Foi através dela que conseguimos entender o que aconteceu, estudar a doença e encontrar caminhos para que o Bento tivesse uma chance. A dor dela virou propósito”, conta Raul. 

A GALD é uma doença rara causada por um mecanismo imunológico materno, em que anticorpos da mãe atacam o fígado do bebê ainda no útero. O quadro pode levar a lesões hepáticas graves, insuficiência hepática neonatal e até óbito fetal ou neonatal. 

O desafio é que, na maioria das vezes, não há sinais específicos durante a gravidez. Muitas famílias só descobrem a doença depois de uma perda gestacional ou diante de um quadro grave no recém-nascido. 

Por isso, o caso de Bento chama atenção pela possibilidade de ampliar o alerta para o diagnóstico precoce, com o intuito de salvar muitas vidas não só em Uberaba, como em todo o mundo por meio da literatura médica.  

Com histórico confirmado da doença e alto risco de recorrência, que pode chegar de 80 a 100%, a nova gestação foi conduzida desde o início como de altíssimo risco. 

Em Uberaba, o pré-natal foi acompanhado pela obstetra Karina Lopes e pelo médico ultrassonografista Alberto Borges Peixoto, responsáveis pelo monitoramento rigoroso da evolução da gestação. 

O tratamento específico contra a GALD contou com acompanhamento especializado em hepatologia pediátrica e medicina fetal do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, além do suporte de uma equipe multidisciplinar para garantir segurança até o nascimento. 

No caso de Bento, o protocolo começou na 14ª semana de gestação, com infusões semanais de imunoglobulina humana intravenosa, estratégia capaz de reduzir a agressão imunológica ao fígado fetal. 

Para Isabela, cada semana vencida foi uma batalha silenciosa. “Foi uma gestação vivida um dia de cada vez. A gente sabia exatamente o que podia acontecer, porque já tinha vivido a pior dor possível. Então cada exame, cada ultrassom e cada semana que passava eram uma mistura de esperança e medo”, relata. 

Segundo estudos médicos, quando o tratamento é iniciado de forma adequada, as chances de sucesso podem chegar a 95%. E foi esse resultado que a família viveu com a chegada de Bento. 

“O Bento representa esperança. Ele é o nosso milagre, mas também representa a importância do diagnóstico precoce. Se nossa história ajudar outras famílias a encontrarem respostas antes de uma perda, já terá valido a pena”, afirma Raul. 

Além do impacto emocional e familiar, o caso de Bento também terá relevância científica. A trajetória será publicada em revista especializada e apresentada em congresso médico, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a GALD e fortalecer protocolos de diagnóstico e tratamento no Brasil. 

Para a família, porém, o maior significado está no legado que une os dois filhos. 

“Toda a condução da gestação do Bento aconteceu baseada em nossa experiência anterior. Sem o que aprendemos com a Betina, provavelmente não teríamos conseguido chegar até aqui da forma como chegamos.”, diz Isabela. 

Hoje, saudável, Bento carrega em sua história não apenas um caso médico inédito no país, mas o símbolo de uma família que transformou a dor em acolhimento, o luto em propósito e a esperança em vida.

Leia também: Do luto ao legado: a história de Betina e o alerta sobre a GALD, doença rara


 

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