SEGUNDO ROUND

Campanha salarial expõe nova disputa entre motoristas e empresas de ônibus

Categoria rejeitou proposta e levantou críticas sobre frota e condições de trabalho, contestadas pela Transube

Larissa Prata
Publicado em 14/09/2026 às 07:21Atualizado em 14/09/2026 às 11:42
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Motoristas do transporte coletivo urbano de Uberaba rejeitaram a contraproposta apresentada pelas empresas concessionárias na campanha salarial deste ano. A categoria reivindica reajuste de 10%, enquanto as empresas ofereceram 7% sobre os salários e 4,1% sobre o tíquete. A proposta foi recusada por unanimidade em assembleia extraordinária realizada na sexta-feira (11), e as negociações deverão continuar antes que uma nova proposta seja submetida aos trabalhadores.

Segundo o Sindicato dos Trabalhadores no Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de Uberaba (Sintracol), a pauta deste ano reúne 31 itens. As informações sobre a negociação foram divulgadas inicialmente pela jornalista Gê Alves e posteriormente reproduzidas pelo sindicato em seu canal oficial no Instagram. Nas publicações seguintes, também foram levantadas críticas às concessionárias, com alegações de descumprimento do contrato de concessão, redução da frota, desconsideração de atestados médicos, comprometimento dos dias de descanso e salários menores em Uberaba na comparação com trabalhadores que exerceriam a mesma função para as mesmas empresas em outras cidades.

Procurado pelo Jornal da Manhã para detalhar as reivindicações e esclarecer os casos apontados nas publicações, o presidente do Sintracol, Roberto Alexandre Vieira, ainda não respondeu aos questionamentos encaminhados pela reportagem. Já o presidente da Associação das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Uberaba (Transube), André Campos, conversou com o JM por telefone e contestou os principais pontos apresentados pelo sindicato.

Em relação à frota, Campos explicou que o contrato de concessão previa inicialmente 125 veículos, mas que o quantitativo foi alterado ao longo da execução do serviço para acompanhar a demanda. Após a pandemia, segundo ele, a Prefeitura revisou as tabelas operacionais e o sistema passou a trabalhar com 102 ônibus. Desde então, novos ajustes foram realizados conforme mudanças na própria cidade, como a abertura de bairros e a necessidade de inclusão ou alteração de linhas.

Por isso, o dirigente contesta a afirmação de que a redução, por si só, configuraria descumprimento da licitação. Segundo Campos, a quantidade de veículos e as linhas em operação atualmente obedecem às Ordens de Serviço emitidas pela Prefeitura, responsável por determinar as tabelas do transporte coletivo. Com as modificações, atualmente a frota está em 106 ônibus, além de dez veículos reservas, totalizando 197 motoristas contratados. 

Campos afirma ainda que o sistema vem enfrentando perda de passageiros sem redução equivalente da operação. Segundo ele, somente em 2025 houve queda de aproximadamente 9% no número de usuários. Para o presidente da Transube, aumentar a quantidade de ônibus sem crescimento da demanda eleva o custo do sistema, que precisa ser compensado por tarifa maior ao passageiro ou por ampliação do subsídio público.

A discussão também passa pela chamada tarifa técnica, calculada a partir dos custos reconhecidos oficialmente pela Prefeitura para manutenção do serviço. Campos afirma que as concessionárias nunca receberam integralmente esse valor e que diferenças de anos anteriores foram levadas à Justiça, com exceção de 2025, que ainda não teria sido judicializado.

Para este ano, segundo ele, as empresas trabalham considerando R$26 milhões previstos pela Prefeitura e outros aproximadamente R$3 milhões que seriam destinados por meio de emendas parlamentares. Campos afirma que ainda não há formalização sobre o repasse referente às emendas e que a previsão repassada às concessionárias seria de pagamento em dezembro. Caso todo o montante seja efetivamente recebido, sustenta André, 2026 poderá ser o primeiro ano em que as empresas receberão integralmente o valor correspondente à tarifa técnica calculada pelo Município.

Sobre a negociação trabalhista, Campos disse que o índice de referência do INPC considerado pelas empresas foi de 4,1%. A contraproposta patronal elevou o reajuste salarial para 7%, enquanto o tíquete permaneceria corrigido pelos 4,1%. A categoria, no entanto, mantém a reivindicação de aumento de 10% nos salários.

O presidente da Transube também rebateu as alegações relacionadas ao cumprimento das condições de trabalho. Segundo ele, as concessionárias estão seguindo todas as cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho vigente, que permanece valendo enquanto um novo acordo não for firmado. Pela atual CCT, afirma, o intervalo dentro da jornada pode chegar a 3h30. Campos também citou, além do salário e do tíquete, benefícios como cesta básica, plano de saúde e plano odontológico.

Em relação à denúncia de que atestados médicos estariam sendo ignorados, Campos afirma ter solicitado ao sindicato a apresentação de um caso concreto para apuração, mas que, até o momento, nenhum episódio específico teria sido encaminhado.

Campos disse que aguardará uma nova proposta da categoria para a continuidade da negociação e afirmou que permanece disponível para o diálogo com o sindicato. “Minha porta está aberta a eles”, declarou.

Em 2025, pedido de 10% também terminou em acordo de 7%

A negociação atual começa praticamente no mesmo ponto da campanha salarial do ano passado. Em 2025, os motoristas também reivindicaram reajuste de 10%, dentro de uma pauta que reunia 34 itens. Entre as demandas estavam ainda a unificação dos tíquetes, redução da jornada de trabalho e mudanças nas escalas. O impasse levou a categoria a aprovar estado de greve e chegou a existir possibilidade de paralisação do transporte coletivo.

A greve, porém, não foi concretizada. Após novas rodadas de negociação, motoristas e concessionárias chegaram a acordo no início de outubro. Apesar da reivindicação inicial de 10%, a categoria aceitou reajuste de 7% nos salários e também de 7% nos tíquetes. Outros pontos da pauta não avançaram: não houve unificação dos benefícios e foram mantidas a jornada de 7h20 e as escalas 5x1 e 7x1 em sistema de revezamento. As demais cláusulas da Convenção Coletiva permaneceram preservadas.

Neste ano, portanto, salário volta a colocar as duas partes praticamente nas mesmas posições iniciais da campanha anterior: os trabalhadores pedem 10% e as empresas oferecem 7%. A diferença mais clara está no tíquete, que terminou 2025 reajustado também em 7%, enquanto a contraproposta atual prevê correção de 4,1%. Por enquanto, não há data divulgada para nova assembleia nem definição sobre qual será a próxima proposta levada à categoria.

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