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Nos últimos dias, viralizou uma trend nas redes sociais sobre como as pessoas seriam na década de 1980. Roupas coloridas, cabelos volumosos e trilhas sonoras da época marcaram as postagens. Mas, e Uberaba? Como era a cidade na década? Em Uberaba, voltar a 1980 significa encontrar uma cidade em crescimento, ainda fortemente ligada à agropecuária, mas que já se destacava pelo comércio, pela educação, pela medicina, pela cultura e pelo início de uma nova fase de industrialização. Os registros do livro Diário de Uberaba, de Marcelo Prata, com planejamento editorial de Guido Bilharinho, ajudam a reconstruir esse cenário.
Naquele ano, Uberaba tinha uma população estimada entre 200 mil e 238 mil habitantes, conforme os levantamentos citados na publicação. Uma das tabelas aponta 202.710 moradores, enquanto outra registra 237.853 pessoas, sendo 214.067 na área urbana e 23.786 na zona rural. Apesar da diferença entre os números, os dados mostram uma cidade que já vivia um processo intenso de urbanização. Em 1940, a população rural era quase do mesmo tamanho da urbana; quatro décadas depois, a maior parte dos moradores estava concentrada na cidade.
A economia ainda tinha no campo uma de suas principais bases. Uberaba era reconhecida nacionalmente pela criação de gado zebu e recebia exposições, leilões, julgamentos e eventos ligados à pecuária no Parque Fernando Costa. Em maio de 1980, foi realizada a 46ª Exposição Nacional de Gado Zebu. A agricultura também tinha força, com produção de arroz, café, feijão, milho, soja, sorgo, cana-de-açúcar, trigo, frutas e hortigranjeiros. Naquele período, o município contava com cerca de 10 milhões de cafeeiros plantados.
O comércio era ainda mais expressivo em número de empregos. Segundo os dados reunidos no Diário de Uberaba, havia 3.592 empresas comerciais, responsáveis por 38.576 postos de trabalho. A indústria, por sua vez, reunia 472 fábricas e empregava 10.107 pessoas. O setor industrial era diversificado, com empresas de alimentos, metalurgia, bebidas, papelão, cosméticos, baterias, cimento, açúcar, carrocerias e outros segmentos. A inauguração da Fosfértil, em 1981, seria um dos acontecimentos que consolidariam a vocação industrial do município.
Mas Uberaba de 1980 não vivia apenas de trabalho e negócios. O lazer passava pelos clubes, cinemas, festas religiosas, eventos esportivos e atividades no Jockey Club. A cidade tinha quatro cinemas, seis estádios, clubes recreativos e esportivos, um Teatro Experimental, um Centro Cultural, um Jardim Zoológico e o Parque Fernando Costa. O Jockey Club também era espaço de encontros sociais e apresentações artísticas. Em maio daquele ano, recebeu o primeiro recital da Orquestra Sinfônica do Conservatório Estadual de Música, criada na cidade sob regência do maestro José Januário.
A vida cultural começava a ganhar novas formas de organização. Em 1980, foram promovidas sessões semanais de arte no Cine Metrópole, com participação de artistas e grupos locais. O grupo Jorrart, formado por Maria Inês Junqueira Guimarães, Flávio Arduini Canassa e Ângelo Ferreira, realizava apresentações na cidade. No ano seguinte, foi aprovado o estatuto da Fundação Cultural de Uberaba, instituição que passaria a atuar na preservação da memória e na promoção das artes. A religiosidade também era parte importante da rotina, com destaque para as festas do Santuário de Nossa Senhora da Abadia.
Na política, Uberaba acompanhava o processo de abertura que ocorria em todo o país. Em 1980, foi aprovado o registro do PMDB, e também foi criado o PDT. No município, a administração era conduzida pelo prefeito Silvério Cartafina Filho, enquanto a Câmara Municipal e entidades empresariais participavam dos debates sobre o desenvolvimento local. Entre os temas que ganhariam espaço ao longo da década estava a proposta de criação do Estado do Triângulo, defendida por setores da sociedade e do empresariado regional.
A cidade também já tinha uma estrutura de serviços que reforçava sua posição como polo regional. O levantamento de 1980 registra 18 hotéis, três emissoras de rádio, uma estação de televisão, dois jornais diários, cinco editoras e uma rede de instituições educacionais e médicas. Havia ainda 63 ônibus urbanos e mais de 36 mil veículos particulares e oficiais cadastrados. Assim, por trás das imagens de cabelos volumosos, roupas coloridas e fotografias com aparência retrô, a Uberaba de 1980 revela uma cidade que preservava tradições, mas já se preparava para mudanças profundas nas décadas seguintes.
Jornal da Manhã
Na década de 1980, a concorrência entre os jornais de Uberaba era intensa. Segundo relato do jornalista Wellington Cardoso Ramos, editor do Jornal da Manhã na época e atualmente colunista, o JM se fortaleceu ao priorizar o noticiário local e investir no jornalismo investigativo, sem recorrer ao chamado Gillette Press, prática de reproduzir conteúdos de outros veículos. As apurações de escândalos como da Amgra e do Suborno foram importantes laboratórios para uma equipe pequena, que trabalhava sem os recursos tecnológicos disponíveis atualmente.
O trabalho era feito “na raça”, com dificuldades compensadas pela disposição dos repórteres e pela preocupação com a qualidade da informação. A investigação sobre a Amgra, conforme Wellington, gerou ameaças a diretores e jornalistas e marcou uma mudança na cobertura política local, ao dedicar amplo espaço às denúncias contra a administração pública. O caso culminou na condenação do então prefeito Wagner do Nascimento, que, entretanto, concluiu o mandato amparado por uma liminar do Tribunal de Justiça.