CAISM orienta que vítimas podem buscar acolhimento em Uberaba mesmo sem registrar boletim de ocorrência
Romper uma relação marcada pela violência pode ser mais difícil do que simplesmente conquistar independência financeira. Em Uberaba, a assistente social do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM), Ana Cláudia Bertagna, explica que a dependência emocional pode manter a mulher ligada ao agressor mesmo quando ela já possui trabalho, renda ou alternativas de moradia.
Segundo a profissional, a rede de proteção consegue atuar sobre parte dos obstáculos que dificultam a saída da relação, oferecendo acompanhamento psicossocial e encaminhamentos para serviços e benefícios. Ainda assim, essas condições não garantem que a mulher consiga romper o vínculo. “Você pode trabalhar com essa mulher, por exemplo, dela ter um trabalho, dela conseguir entrar no mercado de trabalho, conseguir um aluguel social, um benefício social, e ter estrutura financeira para poder romper com esse vínculo, e ela não dá conta”, explica em entrevista ao programa De Frente Pra Notícia, da Rádio JM.
A dependência emocional não é o único fator que dificulta o rompimento. Segundo Ana Cláudia, ameaças contra a própria vítima, os filhos e outros familiares podem aumentar o medo e fazer com que a mulher adie a procura por ajuda. “Existem relacionamentos abusivos em que o agressor faz ameaças de morte, de agredir a companheira, de essa agressão chegar aos filhos, chegar aos familiares da mulher”, afirma.
A preocupação com a sobrevivência da família também pesa na decisão. “Como é que ela vai se manter, como é que ela vai manter os filhos? Então são várias situações que levam ela a não fazer essa denúncia”, pontua.
Os dados mais recentes da Secretaria Municipal de Saúde ajudam a dimensionar esse cenário. Em 2025, Uberaba registrou 3.262 mulheres vítimas de violência, mas apenas 432 chegaram aos serviços de saúde. Entre as notificações analisadas, 356 agressões ocorreram dentro da residência e 353 foram praticadas por parceiros ou ex-parceiros. A violência psicológica ou moral apareceu em 277 registros, acima dos 235 casos de violência física.
A procura pelo CAISM também não exige que a mulher esteja decidida a denunciar o agressor. O atendimento pode começar com o acolhimento e a identificação das necessidades da vítima e de sua família. “Ela não precisa, ela pode ir para o CAISM, receber todos os atendimentos e não registrar boletim nenhum, nem passar pela delegacia, se ela assim não quiser no começo”, informa.
A partir desse primeiro contato, a mulher pode receber atendimento psicológico, médico e social e ser encaminhada para outros serviços conforme a necessidade. Para a assistente social, esse acompanhamento pode ajudar a vítima a reconhecer a situação em que está inserida e, gradualmente, construir condições para romper. “O começo é ela, quando ela percebe que está vivendo a violência e aceita o acompanhamento psicossocial, isso facilita ela romper com esses vínculos desse relacionamento abusivo”, afirma.
Quando a principal dificuldade é financeira, a assistência social pode avaliar alternativas disponíveis para cada caso. Entre elas estão benefícios sociais e aluguel social, além de possibilidades de acolhimento protegido em situações de maior risco. “Isso dá um apoio muito grande, porque ela consegue enxergar que existem outras possibilidades além de ficar com esse companheiro agressor”, explica.
Em casos de necessidade de proteção, a mulher pode ser acolhida junto dos filhos enquanto reorganiza a vida. “Ela pode levar os filhos junto com ela e ficar ali num local protegido até que consiga reorganizar a sua vida e buscar um trabalho, um local para morar”, ressalta.
O atendimento também pode considerar os impactos da violência sobre os filhos, com encaminhamentos para outros serviços da rede quando necessário. “Por isso que tem esse acolhimento inicial, para a gente levantar as demandas e ver as necessidades de cada mulher e da família dela”, afirma.
A dificuldade de romper, portanto, não termina quando a mulher consegue acesso a trabalho, renda ou moradia. O vínculo emocional com o agressor pode permanecer e fazer com que ela continue em uma relação violenta, mesmo quando já existem alternativas para sair. Para Ana Cláudia, esse é um dos principais desafios enfrentados no acompanhamento das vítimas.