FTU afirma que dificuldades das empresas não devem impedir redução da jornada e cobra medidas contra demissões e sobrecarga
O fim da escala 6x1 pode beneficiar não apenas os trabalhadores, mas também a economia, ao ampliar o tempo disponível para consumo, lazer e outras atividades. É o que defende o Fórum dos Trabalhadores de Uberaba (FTU), que vê na redução da jornada uma oportunidade de fortalecer o comércio e os serviços locais. A entidade argumenta que a mudança deve ser discutida para além dos custos empresariais, considerando também os efeitos de melhores condições de trabalho e de vida para a população.
Em novo posicionamento encaminhado ao Jornal da Manhã, o FTU afirma que o tempo livre pode contribuir para movimentar diferentes setores da economia de Uberaba, como comércio, bares, restaurantes, pequenos empreendedores e serviços locais.
“Quando o trabalhador tem mais tempo para viver, descansar e conviver com a família, abre-se espaço para uma nova dinâmica de consumo, beneficiando o comércio, os bares, os restaurantes, os pequenos empreendedores e os serviços locais”, afirma o Fórum.
A entidade destaca o papel do comércio e dos serviços na economia do município e defende que a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores seja transformada em oportunidades para os negócios, geração de empregos e desenvolvimento dos bairros. Para isso, considera necessário preparar as empresas para a transição, com planejamento das escalas, qualificação profissional e ganhos de produtividade.
O posicionamento enviado anteriormente ao JM defende a redução da jornada para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e manutenção dos salários. Para o FTU, eventuais dificuldades de adaptação das empresas precisam ser consideradas, mas não podem servir de justificativa para impedir avanços nos direitos trabalhistas.
“É necessário avaliar esse argumento com responsabilidade, mas também sem aceitar que os direitos dos trabalhadores sejam tratados como obstáculos ao desenvolvimento econômico”, afirma o posicionamento.
A entidade também defende que a mudança seja acompanhada de planejamento e negociação coletiva, para evitar que a redução das horas trabalhadas resulte em demissões, precarização ou aumento da carga de tarefas durante o expediente.
Além dos possíveis reflexos econômicos, o posicionamento destaca os impactos das jornadas extensas sobre a saúde e a qualidade de vida. O tempo livre, segundo a entidade, é importante para a convivência familiar, os cuidados com a saúde, os estudos e a participação em atividades culturais e sociais. “Descanso não é privilégio, é direito. Tempo livre também é qualidade de vida”, ressalta o texto.
O documento também aponta que o excesso de trabalho pode aumentar o desgaste físico e emocional, o estresse e o risco de adoecimento. Por isso, a defesa da redução da jornada está associada à garantia de condições dignas de trabalho, sem transferência das tarefas para o período de descanso. “Não é aceitável que o trabalhador pague a conta de uma mudança que busca justamente assegurar melhores condições de vida e de trabalho”, destaca o posicionamento.
Em Uberaba, setores que dependem do funcionamento aos fins de semana e feriados estão entre os que podem precisar reorganizar as escalas. O posicionamento cita comércio, supermercados, alimentação, hotelaria, transporte, saúde, segurança e atendimento ao público.
A entidade defende que a adaptação ocorra com dimensionamento adequado das equipes, respeito aos contratos e diálogo entre empregadores, sindicatos e poder público. Também considera necessário impedir que a redução formal da jornada leve à concentração de tarefas em menos horas ou à realização de horas extras sem remuneração.
O tema já provocou alertas de representantes empresariais ouvidos pelo Jornal da Manhã. O presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Uberaba (Sinhores), Fernando Abdalla, apontou dificuldades para contratar e treinar profissionais que possam cobrir as folgas.
O economista Marco Antônio Nogueira estimou que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais pode elevar em cerca de 10% o custo médio da hora trabalhada, com possíveis reflexos nos preços, nos horários de funcionamento e nas contratações, dependendo das decisões das empresas. A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Uberaba também alertou para os impactos sobre os custos, principalmente para micro e pequenas empresas.
Para que a redução da jornada produza mudanças efetivas, o posicionamento defende a manutenção salarial, a fiscalização do cumprimento das regras, o fortalecimento da negociação coletiva e a adoção de mecanismos para evitar a sobrecarga.
O documento também chama a atenção para as particularidades do trabalho docente, que inclui preparação de aulas, correção de atividades, elaboração de materiais e reuniões, além do tempo em sala de aula.
Nesse contexto, destaca a campanha “Aulas aos sábados: NÃO”, do Sindicato dos Professores de Minas Gerais (SinproMinas). A Convenção Coletiva de Trabalho 2026/2027 firmada com o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Triângulo Mineiro (Sinepe/TM) proíbe aulas aos sábados, com exceção da substituição de emendas de feriados para cumprimento dos 200 dias letivos, limitada a cinco sábados por ano.
O posicionamento ressalta que exames e conselhos de classe não justificam a ampliação da jornada contratada. A defesa é de que a redução das horas de trabalho represente uma mudança concreta, sem perda de direitos ou transferência de obrigações para o período de descanso.