
Desde nova, Dona Maria Candida batalhou pelo que quis (Foto/Jairo Chagas)
Sentada no sofá, com vestido rosa e casaquinho branco, dona Maria Cândida nos esperava após acordar do cochilinho depois do almoço. Aliás, dormir até tarde é algo que ela adora, segundo a filha Olésia. E ela completa: "Dormir é bom. Não durmo antes de 22h, ai acordo tarde”. Assim que me apresentei, já fui convidada para sentar no sofá e ela segurou a minha mão. Carinhosa, ficou fazendo carinho em mim até o final da prosa.
Extremamente lúcida, entrega os 106 anos bem vividos e sem nenhum arrependimento. "Nada, não me arrependo de nada. Gosto demais da vida que tive", relata, categórica.
Dona Maria Cândida Vaz nasceu no bairro rural de Ponte Alta e é a segunda filha de sete irmãos. Ainda criança, perdeu o pai e, com isso, a família perdeu toda a fonte de renda. Aos 15 anos já estava prometida a um pretendente, escolhido pela mãe. Aos 16, bateu o pé e escolheu se casar com outro rapaz. Aos 18, grávida da segunda filha, ficou viúva. É perceptível que a força que sustenta a história teve que ser adquirida desde muito nova.
Meses depois, Maria Cândida casou-se pela segunda vez com Joaquim Batista Pereira, que já tinha um filho. Dos 16 filhos, 11 nasceram pelas mãos de parteiras voluntárias, na fazenda em Ponte Alta. “Sempre gostei de cuidar dos meus filhos, da minha casa, fazer comida, lavar, passar…Nunca tive ajuda de ninguém e sempre fiz com amor”.
Moradora do “Beco dos Aflitos” há 67 anos, saiu do distrito de Ponte Alta para garantir o estudo dos filhos. Com a mudança, chegaram também os sobrinhos que acolheu em casa.

Torcedora do Uberaba Sport, Dona Maria fica coladinha ao rádio acompanhando os jogos (Foto/Jairo Chagas)
“Gosto da casa cheia! Gosto de ficar com os meus filhos, meus netos… E eles gostam muito de mim. Me dão beijo, abraço, fazem carinho em mim, ficam vendo televisão comigo”, conta alegre, fazendo carinho na minha mão, exemplificando como fazem.
Ela conta que as dificuldades fazem parte da vida, mas o importante é ter saúde. “Dinheiro é bom pra poder ajudar quem não tem. Mas o importante é ter saúde, fazer o bem, não ter vício e reunir com a família”, completa.
Ao longo da vida, perdeu seis filhos. Mas conta com gosto que tem 16 filhos, 22 netos, 23 bisnetos e três tataranetos. Hoje, o maior prazer é reunir toda a família, aos sábados, na hora do almoço. “Comida temperadinha! Adoro torresmo, só não faço porque não enxergo mais, mas como”, conta em meio a risadas.
Outra coisa que gosta bastante é do Uberaba Sport Club. “Agora “tá” ruim, mas escuto todos os jogos colada na rádio, até voltar a ficar bem”, conta assim que cito que o Colorado trocou o técnico. E ainda completou dizendo que gosta de ouvir os jogos de futebol que passam na televisão e, se deixar, fica até tarde.