Negociação com empresa chinesa envolve unidade de Ponte Alta e sete áreas de pesquisa mineral na região; local também tem potencial para implantação de geossítio
A possível venda da CSN Cimentos para a empresa chinesa Huaxin pode ter desdobramentos para Uberaba, onde a companhia mantém uma unidade de fabricação de cimento no bairro de Ponte Alta e possui sete áreas de pesquisa mineral na região. Além do potencial econômico, a área tem importância paleontológica e abriga registros de ovos de dinossauros.
Na sexta-feira (30), a CSN anunciou que a Huaxin apresentou a proposta mais vantajosa no processo competitivo para aquisição da divisão de cimentos. As empresas assinaram um acordo de exclusividade de dez dias para negociar os documentos definitivos da operação, avaliada em R$ 12,7 bilhões. A transação ainda não foi concluída.
Nesse cenário, o futuro das atividades industriais e minerárias em Ponte Alta também chama a atenção pela presença de patrimônio paleontológico. Para o paleontólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, a região reúne uma ocorrência de ovos de dinossauros considerada uma das mais importantes do Brasil.
Segundo Ribeiro, o material chegou ao conhecimento de pesquisadores por volta de 2020 e foi objeto de estudo científico publicado posteriormente, por volta de 2022. O especialista também relata que, há aproximadamente três anos, começou uma articulação para apresentar ao Ministério Público Federal informações sobre a possibilidade de implantação de um geossítio em Ponte Alta.
A proposta busca valorizar o patrimônio paleontológico da região e criar condições para pesquisas, conservação, educação patrimonial e turismo. Entre as medidas necessárias estão a realização de escavações, a instalação de sinalização e o desenvolvimento de ações voltadas à preservação dos registros fósseis.
De acordo com Ribeiro, as atividades de mineração em Ponte Alta estão paralisadas há aproximadamente 26 anos. Ele destaca que Uberaba possui sete áreas de pesquisa mineral vinculadas à CSN na região, o que mantém em discussão o potencial de exploração mineral.
Para o paleontólogo, a atividade econômica e a preservação do patrimônio fossilífero não precisam ser tratadas como objetivos incompatíveis. Ele defende que eventuais trabalhos de mineração sejam acompanhados por monitoramento especializado, com procedimentos para identificação e resgate de fósseis. “Eu acho que é totalmente possível viabilizar desenvolvimento com conservação”, afirma.
Ribeiro avalia que a mineração pode, inclusive, contribuir para novas descobertas paleontológicas, desde que haja acompanhamento técnico. “Não podemos também, em função do fóssil, parar as atividades econômicas. A mineração é fonte fundamental de recursos, geração de emprego e qualidade de vida no território”, afirma.
O especialista também defende a retomada das atividades econômicas na região, desde que acompanhada de medidas de proteção ao patrimônio. “Seria interessante retomar a mineração, porque eu acho que é superimportante aquela área de Ponte Alta”, diz.
Ribeiro menciona discussões sobre o estabelecimento de um zoneamento paleontológico e de um programa de monitoramento e resgate de fósseis. A proposta é organizar procedimentos para que possíveis descobertas durante intervenções na área sejam identificadas e preservadas.
Na avaliação do paleontólogo, a conciliação entre atividade econômica e conservação depende de planejamento e acompanhamento permanente. Dessa forma, a região poderia manter seu potencial produtivo sem deixar de proteger os registros que ajudam a contar a história geológica e paleontológica de Uberaba.
A possível mudança de controle da CSN Cimentos ainda não permite antecipar quais serão os planos da futura compradora para a unidade de Ponte Alta ou para as áreas de pesquisa mineral no município.