A entrevista de hoje é com Fuad Miguel Hueb, um dos fundadores do Sistema Sete Colinas de Comunicação. Nascido em 23 de fevereiro em 1931, aos 87 anos, Fuad só pensa em não parar de trabalhar, pois para ele trabalho é sinônimo de saúde e vitalidade. O fato de se dedicar a esse hábito há mais de 70 anos reforça a teoria. Terceiro dos nove filhos de Nassim Miguel Hueb e Laila Cecília Hueb, Fuad viveu a infância e a juventude aprendendo e trabalhando no Armazém Nassim Miguel Hueb e Filhos, na loja Pan-Mac e depois na Rádio Sete Colinas, com os irmãos. Foi casado com dona Lurdinha Rodrigues da Cunha Hueb por 64 anos, com quem teve sete filhos: Fuad Miguel Hueb Filho, Flávio Hueb, Cristina da Cunha Hueb Barata de Oliveira, Márcia Hueb Sabino de Freitas, Beatriz Hueb Mattar, Janice Hueb e Fabiano Hueb. A rádio foi inaugurada na frequência AM no dia 9 de maio de 1968 e, em 1979, também entrou no ar com a Sete Colinas FM, operando em 98.1MHz. Por vários anos o foco em AM foi o jornalismo, esporte e entretenimento. Com a migração, em novembro de 2016, a Sete Colinas AM foi a primeira emissora do Triângulo Mineiro a contar com duas FMs, sendo a 98.1, mais focada em música, e a 101.7, em jornalismo.
Jornal da Manhã – Como se deu a ideia de criar uma rádio, já que sua família tinha experiência apenas com comércio?
Fuad Miguel Hueb – Nós éramos muito amigos do Jorge Zaidan. Ele era gerente da antiga Rádio Difusora e sempre que tínhamos uma folga íamos para lá bater papo com ele. Primeiro fui eu, depois o Edson Prata [fundador do Jornal da Manhã], e o pessoal foi se juntando. Certo dia apareceu uma emissora à venda em Ituiutaba, do Fauze Abdulmassih, e decidimos comprá-la. O Jorge pediu demissão da Difusora para gerenciar a nossa rádio. Trabalhamos quase um ano com o nome de Rádio Difusora de Ituiutaba e então conseguimos a transferência para Uberaba. Éramos sete amigos, e como Uberaba é a terra das sete colinas, foi assim que surgiu o nome. Assim, começamos com Farah Zaidan, Jorge Zaidan, Edson Prata, José Cury Peres, Fauze Hueb, eu e o Luiz Gonzaga.
JM – Quais foram os principais desafios?
Fuad Hueb – Naquela época era muito difícil viver de publicidade, ainda mais em uma emissora nova, mas, pelos relacionamentos dos sócios, sempre conseguíamos um ou outro. O José Cury Peres tinha umas amizades em São Paulo, de onde conseguimos umas propagandas. O Edson Prata também tinha relacionamento muito bom nessa área de publicidade como dono do Jornal da Manhã. Então, dificuldades tivemos, e diversificadas, mas graças a Deus superamos todas!
JM – Na época da criação, a Sete Colinas precisou enfrentar fortes concorrentes, como as rádios Sociedade e Difusora. Como foi esse processo de se colocar em um mercado já formado?
Fuad Hueb – Sabe que em certo ponto isso até nos ajudou? Porque nós pegamos um pouco a experiência deles, ou melhor, aproveitamos as falhas deles, e buscamos fazer diferente para eliminarmos os mesmos problemas. Se uma rádio errava em determinada coisa, nós sabíamos que não podíamos cometer o mesmo erro. Além disso, todos os sete sócios tinham boas ideias e um tino para o comércio e, graças a Deus, superamos as duas concorrentes, tanto que nós estamos no mercado até hoje.
JM – E era difícil ter que deliberar as questões da rádio e conseguir uma concordância saudável entre tantos sócios?
Fuad Hueb – Não, não. É uma coisa que sempre falo. Nós sete não precisávamos carregar canetas, tudo era resolvido na base da conversa. Se um falava em fazer alguma coisa, ele ia e fazia. Conversávamos e cumpríamos o que falávamos. Não era preciso assinar nada, tudo era feito na base da boa vontade mesmo. Com a confiança e a certeza de que o necessário seria cumprido. Além disso, as nossas ideias batiam. Estávamos sempre sentados, discutindo as coisas. Se aparecia uma ideia nova, minha ou de outro sócio, levávamos para a reunião e nós sete conversávamos para decidir como iríamos resolver determinado problema. É o que eu não vejo acontecer hoje; cada diretor tem uma ideia, um quer aparecer mais que o outro. Poucas pessoas sabem que o Edson Prata ou o Luiz Gonzaga, o Farah ou o Jorge eram donos da Sete Colinas, porque ninguém queria aparecer. Quem mais apareceu da rádio fui eu, porque fui ficando sozinho. Vivos só estão eu e o Luiz Gonzaga.
JM – O senhor administrou a rádio por muitos anos com seu irmão Fauze e outros sócios. Depois, tanto seus filhos como seus sobrinhos vieram ajudar nesse trabalho. Como tem sido esse apoio?
Fuad Hueb – Como fiquei sozinho, decidi colocar meus filhos e a mulher do Fauze, os dela, para ajudarem a tocar o que vai ser deles. E estão tocando, vamos ver se eles tocam por mais 50 anos. Lá de cima eu vou ficar vigiando [risos].
JM – Sobre o momento político quando da criação da rádio, como foi buscar a implantação desse projeto durante a ditadura militar?
Fuad Hueb – Nós geralmente respeitávamos muito os militares e suas decisões, mas sempre em troca de que eles também respeitassem as decisões da rádio. Ou seja, não atacávamos ninguém e também não defendíamos. Não éramos contra, nem a favor, éramos totalmente imparciais.
JM – Como o senhor vê esse formato de rádio, que une música e jornalismo?
Fuad Hueb – São vertentes completamente diferentes, mas acho que foi muito bom. Antigamente, quando nós montamos a rádio, tocávamos só música, caipira ou de outros estilos, e nós começamos a criar um espaço para o jornalismo na rádio e pegou. Hoje, o jornalismo tem 50% do espaço da rádio. É importante investir nessa área, aliás, é mais importante que a música. Porque a música você pode ouvir em outros meios, mas jornalismo não. Tem o jornal das 7h, naquela hora os ouvintes são fiéis e ligam o rádio para ouvir. É importantíssimo esse papel de informar a população de Uberaba e região, pois, além de informar, o jornalismo leva decisões e fatos que estão acontecendo em outros locais.
JM – A rádio surgiu em 1968, naquela época os equipamentos eram bem diferentes dos usados hoje... Como era?
Fuad Hueb – Antigamente, os equipamentos eram analógicos e hoje é tudo digital, ou seja, aparelhos vêm com um volume menor, mas com maior potência, o que facilitou muito o trabalho nas rádios. Antes, os equipamentos eram bem maiores. Uma mesa de som ocupava um console de quase dois metros por um. Hoje, uma mesa de som ocupa bem menos e é possível colocar em um espaço de 60 por 60 centímetros. Para trazer o primeiro transmissor que nós compramos, tive que arrumar um caminhão desses trucados. Ele devia ter uns dois metros de altura por três a quatro metros de largura. Hoje, o nosso transmissor de 10kW (quilowatts) é colocado em cima de uma mesa e carregamos em uma caminhonete.
JM – Como o senhor vê o avanço da modernidade, ela trouxe muitas mudanças na maneira de se fazer rádio?
Fuad Hueb – Demais da conta. Primeiro usávamos toca-discos enormes, o técnico tinha que saber em qual faixa estava a música, ficar lá esperando para colocar. Depois saiu um gravador que usava cartucheiras, o que facilitou muito. Hoje nem precisamos disso, basta programar o computador, que sozinho toca a rádio toda. O custo é menor e as despesas com energia elétrica também, com manutenção bem mais barata. Algumas pessoas podem perguntar: então a rádio não gasta nada? Gasta sim, mas antigamente gastava bem mais.
JM – Aliás, o senhor nunca economizou quando o assunto era investir na rádio...
Fuad Hueb – Nunca fizemos restrição a despesas e sempre procuramos o melhor, sem exagerar, mas sempre estávamos com bons equipamentos e com as tecnologias mais atuais. Graças ao nosso trabalho, com a ajuda de Deus, sempre fizemos questão de acompanhar a evolução, nunca deixamos para depois. Quando lançavam um equipamento novo, éramos uns dos primeiros a adquirir, acompanhando a modernidade.
JM – O senhor acha que este é um dos fatores que fizeram com que a Sete Colinas chegasse a completar 50 anos entre as melhores rádios?
Fuad Hueb – A rádio fez 50 anos graças a todo o pessoal que trabalhou conosco. Eles é que deram vida a essa história, não eu ou outro sócio. Nós mostrávamos o caminho e seguíamos esse percurso juntos. Faziam o que tinha que ser feito com sinceridade e honestidade, sem pensar em sensacionalismo ou em se projetar individualmente. Lá, o negócio sempre foi fazer em função da rádio, para isso trabalhávamos em equipe. Hoje, eu dou todo o valor a eles, todos os funcionários, por estes 50 anos de rádio. Todos têm seu papel, diretores, jornalistas, programadores, etc. Nunca decidíamos sozinhos, ouvíamos a opinião de todos.
JM – Qual a sensação de comemorar 50 anos de trabalho, sempre se destacando no mercado em que atua?
Fuad Hueb – Sei lá, hoje [9 de maio] me senti tão realizado e tão emocionado, que tinha horas que me faltavam as palavras para dizer o que eu estava sentindo. Além disso, sempre tivemos uma coisa na rádio que era o sentimento de companheirismo com os colegas de outras emissoras e outros veículos. Nunca nos afastamos, se precisássemos deles, íamos lá e pedíamos, e também eles, se precisassem de nós, estávamos dispostos a ajudar. Hoje recebi abraços não dos “concorrentes”, mas de muitos colegas de profissão.
JM – A Sete colinas foi a primeira a migrar do AM para o FM, como foi esse processo?
Fuad Hueb – Fui eu que fiz a migração, indo a Brasília logo que o Ministério das Comunicações abriu o prazo para as emissoras mudarem para a operação na faixa FM. Para nós, administrativamente não mudou nada, mas para o ouvinte a migração proporcionou um serviço com qualidade de som aperfeiçoada, bem como melhorou o alcance. As rádios AM trabalhavam com as ondas estratosféricas, a frequência tinha que subir para depois chegar aos rádios, já a FM trabalha com ondas bem mais fáceis de chegar aos ouvintes e com maior nitidez.
JM – O senhor acredita que o rádio um dia pode perder seu espaço, em meio a tanta modernidade?
Fuad Hueb – Ah não, isso nunca vai acontecer. Você pode estar em casa deitado, de olhos fechados, ou dirigindo seu carro enquanto ouve as notícias ou as músicas. Isso não acabará nunca!