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Entre águas e memórias, relato familiar resgata os primeiros caminhos da ocupação de Uberaba

Juliana Corrêa
Publicado em 27/08/2026 às 17:56
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Major Eustáquio da Silva e Oliveira (1769-1832) (Foto/Reprodução)

Major Eustáquio da Silva e Oliveira (1769-1832) (Foto/Reprodução)

Uma grande enchente, córregos que hoje estão escondidos pela urbanização e a busca por um local com água em abundância fazem parte de uma história sobre os primeiros tempos de Uberaba, preservada pela memória de uma família da cidade. O relato compartilhado pela climatologista Wanda Prata com exclusividade ao Jornal da Manhã traz detalhes sobre a chegada do Major Eustáquio à região e sobre como a experiência com a paisagem e as águas teria influenciado as primeiras escolhas de ocupação do território. Wanda conta que sua bisavó, Maricota, era uma das quatro filhas do Major, e suas histórias foram transmitidas por gerações.

Segundo a narrativa familiar relatada por Wanda, o grupo que acompanhava o Major Eustáquio da Silva e Oliveira (1769-1832) atravessou o Rio Grande com o objetivo de estabelecer um núcleo na região então conhecida como Sertão da Farinha Podre. Antes de chegar ao local onde Uberaba se desenvolveria, a expedição teria passado por outra área, mas o Major não teria se agradado do relevo e, principalmente, da distância entre as partes mais altas e as fontes de água. 

A busca continuou até que o grupo encontrou uma região com um volumoso rego d'água, que, segundo a memória preservada pela família, descia em direção ao Córrego das Lajes. Wanda conta que esse curso d'água atravessava uma área correspondente a parte do atual Centro de Uberaba. A presença da água teria sido um dos fatores decisivos para a escolha do local onde o grupo se estabeleceria. 

Foi ali que, ainda segundo a narrativa transmitida à climatologista, uma forte chuva mudou o cenário. Durante a noite, o volume das águas aumentou e o Córrego das Lajes teria transbordado. As canoas utilizadas pelo grupo ficaram flutuando e a viagem precisou ser interrompida até que as águas baixassem. A experiência com aquela enchente, segundo a história preservada pela família, ficou marcada para o Major Eustáquio. 

O episódio teria influenciado a forma como as primeiras construções foram pensadas. Wanda relata que a orientação atribuída ao Major era para que as casas mantivessem distância dos cursos d'água, justamente porque o grupo havia presenciado a força das cheias. Na memória familiar, há inclusive a recomendação de deixar uma faixa livre de ocupação nas proximidades do Córrego das Lajes. 

A presença dos córregos também aparece como explicação para uma curiosidade sobre o traçado urbano. Segundo o relato de Wanda, a ocupação avançou pela região da atual Rua Vigário Silva e precisou acompanhar e contornar os cursos d'água encontrados pelo caminho. Na narrativa transmitida por sua família, é essa necessidade de respeitar o terreno e os córregos que ajuda a explicar o traçado irregular da via, conhecida até hoje por suas curvas. 

Outro detalhe preservado pela memória da família é a orientação para que as árvores existentes fossem mantidas nos quintais das primeiras casas. A recomendação, segundo Wanda, era construir sem simplesmente eliminar a vegetação do local. Também teria sido providenciado um espaço separado para que os animais bebessem água, evitando que entrassem diretamente no curso utilizado pelo grupo. 

A história, no entanto, não chega a Wanda apenas por meio de relatos antigos. A climatologista conta que ainda conheceu, durante a infância, uma antiga casa atribuída ao Major Eustáquio. Mais tarde, o imóvel teria abrigado um comércio frequentado por ela, em uma lembrança que aproxima a história dos primeiros tempos da cidade da memória pessoal de quem cresceu em Uberaba. 

Além da ocupação inicial, a narrativa familiar compartilhada por Wanda reúne outras curiosidades sobre o personagem, como o início do comércio de produtos como carne seca e farinha e a descoberta de locais com sal na região. São histórias que, transmitidas ao longo das gerações, ajudam a compor a memória oral sobre um dos personagens ligados à formação de Uberaba. 

O relato de Wanda Prata representa, assim, uma memória familiar sobre esse período da história da cidade. A narrativa preserva uma dimensão que dificilmente aparece nos registros oficiais: a forma como uma família, ao longo das gerações, guardou e transmitiu a história de um personagem que se tornou parte da própria memória de Uberaba. 

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