Segundo especialista, Brasil tem regras para isolamento e notificação de casos suspeitos, mas cenário não é de pânico
O avanço do surto de ebola na África voltou a acender alertas globais de saúde pública e levantou questionamentos sobre a possibilidade de chegada da doença ao Brasil. Apesar do cenário internacional, especialistas afirmam que o risco de transmissão no país é considerado baixo e que não há motivo para pânico. O médico infectologista Rodrigo Molina explicou que o Brasil possui protocolos específicos para vigilância, isolamento e notificação de casos suspeitos, inclusive em cidades do interior, como Uberaba.
A preocupação ganhou força após a Organização Mundial da Saúde declarar emergência de saúde pública de importância internacional diante do avanço acelerado da epidemia na República Democrática do Congo. Segundo autoridades de saúde, o surto já soma centenas de casos suspeitos e mais de uma centena de mortes, com registros próximos a regiões de fronteira e áreas de intensa circulação populacional.
De acordo com Molina, o ebola não possui transmissão aérea, como ocorre em doenças respiratórias. “O vírus está relacionado ao contato direto com sangue, secreções e outros fluidos corporais de pessoas sintomáticas ou materiais contaminados”, explica. O infectologista destaca que, para haver um caso no Brasil, seria necessário que uma pessoa tivesse passado por uma área de transmissão ativa e viajado durante o período de incubação da doença.
Segundo o especialista, em Uberaba o risco é ainda mais remoto por não se tratar de uma porta de entrada internacional. “Seria mais provável que uma eventual suspeita envolvesse um viajante vindo de um grande centro internacional antes de chegar à cidade. Não é um cenário de pânico, mas de vigilância epidemiológica qualificada”, afirma.
O médico explica que o Brasil já possui protocolos definidos para doenças de notificação imediata, como febres hemorrágicas virais. Conforme ele, qualquer suspeita depende da combinação entre sintomas compatíveis e histórico epidemiológico recente, como viagem para áreas afetadas nos últimos 21 dias ou contato com casos suspeitos. “Quando o paciente se enquadra nessa definição, o caso deve ser notificado imediatamente às autoridades sanitárias. A unidade de saúde faz o isolamento, aciona a vigilância epidemiológica e define o encaminhamento conforme a rede de referência”, detalha.
Segundo Molina, Minas Gerais já registrou suspeitas anteriores de ebola, posteriormente descartadas, mas que seguiram todos os protocolos nacionais de segurança e investigação.
Entre os principais sintomas da doença estão febre alta, fraqueza intensa, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta. Em quadros mais graves, podem ocorrer vômitos, diarreia, dores abdominais, manchas na pele e manifestações hemorrágicas. O período de incubação varia de dois a 21 dias e, antes do início dos sintomas, a pessoa infectada não transmite o vírus.
O infectologista ressalta ainda que o maior risco está relacionado à exposição direta aos fluidos corporais de pacientes sintomáticos, especialmente para profissionais de saúde sem proteção adequada. “Toda unidade precisa ter plano de contingência para doenças transmissíveis graves, com triagem rápida, isolamento e uso correto de equipamentos de proteção”, pontua.
Molina também alerta para o risco de desinformação e preconceito diante do avanço do surto. “É importante evitar qualquer tipo de estigmatização de pessoas africanas ou viajantes. O risco não está relacionado à nacionalidade, mas sim à exposição em áreas de transmissão ativa e ao contato com pessoas doentes”, reforça.
Segundo ele, a principal recomendação para a população é manter atenção às informações oficiais e confiar nos sistemas de vigilância epidemiológica. “Não existe transmissão comunitária de ebola no Brasil. O cenário é de vigilância preventiva, não de risco generalizado”, conclui.