PREMATURO?

Grades da Leopoldino podem virar floreiras por menos de 4% da economia do banco andino

Projeto estimado em R$ 3 milhões está nas mãos da Prefeitura, que ainda não confirma se adotará a proposta

Larissa Prata
Publicado em 06/07/2026 às 10:59
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 (Foto/Divulgação)

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A possível retirada das grades da avenida Leopoldino de Oliveira voltou ao debate em Uberaba com um paradoxo: a Prefeitura afirma que ainda é prematuro falar em custo da intervenção ou no destino do material, mas já tem em mãos ao menos um projeto doado por especialista em urbanismo para requalificar o canteiro central da via. A proposta, assinada pelo arquiteto urbanista Daniel Rodrigues, ex-superintendente de Planejamento Urbano da Seplan, prevê substituir o gradil por floreiras elevadas e elementos paisagísticos ao longo de cerca de 1,5 quilômetro da avenida central de Uberaba.

O assunto ganhou novo fôlego depois que a prefeita Elisa Araújo afirmou, em entrevista ao programa Pingo do J, da Rádio JM, que pretende verificar junto à CAF [Banco de Desenvolvimento da América Latina – Corporação Andina de Fomento] a possibilidade de redirecionar parte da economia obtida na licitação dos tubos da obra de captação de água no rio Grande para uma intervenção na Leopoldino. Segundo Elisa, a concorrência gerou economia de aproximadamente R$80 milhões.

Questionada pelo Jornal da Manhã sobre quanto custaria a eventual retirada das grades e o que seria feito com o material removido, a Prefeitura não apresentou estimativa nem detalhou alternativas. Em nota, limitou-se a informar que a prefeita “se comprometia em averiguar junto à CAF a possibilidade do redirecionamento dos recursos para esse fim”. “Nesse sentido, ainda não é possível falar em custo para a retirada das grades e mesmo a destinação do material”, informou o município, em nota enviada à reportagem.

A resposta mantém em aberto uma discussão que já atravessa cerca de dez anos em Uberaba. As grades foram instaladas no contexto da implantação do sistema BRT/Vetor, inaugurado em 2015 na avenida Leopoldino de Oliveira, com a proposta de priorizar o transporte coletivo no corredor Leste-Oeste. À época, o sistema foi apresentado como uma mudança estrutural para o transporte urbano, com estações tubo, terminais e faixa preferencial para ônibus ao longo da avenida.

Desde então, porém, o gradil passou a ser alvo de críticas recorrentes. Comerciantes, motoristas e vereadores já questionaram o impacto visual, a redução de vagas de estacionamento, a mudança na dinâmica do Centro e a sensação de “barreira” no principal eixo comercial da cidade. Por outro lado, a justificativa original para a estrutura sempre esteve ligada à segurança de pedestres e à tentativa de evitar travessias fora das faixas em uma avenida cortada pelo corredor do BRT.

O projeto elaborado por Daniel Rodrigues tenta responder justamente a esse impasse. Segundo o arquiteto, a ideia foi pensada para melhorar a paisagem urbana e ampliar a presença de verde no Centro, sem liberar travessias irregulares. Ele explica que a Leopoldino tem uma limitação física importante: parte do canteiro central está sobre lajes dos canais fechados do córrego, com pouca profundidade para plantio de árvores. Nas calçadas do microcentro, a situação também é limitada pela existência de fiação subterrânea.

Por isso, a solução proposta é criar floreiras elevadas acima do nível da pista, seguindo o padrão já existente em trecho da própria Leopoldino, na direção leste, onde há elementos em tijolinho e palmeiras. “A ideia é que, no lugar das grades, sejam criadas floreiras acima do nível da pista, seguindo o padrão que já existe na Leopoldino, com palmeiras ou coqueiros, para levar um pouco mais de verde ao Centro”, explicou Daniel.

A proposta também prevê um cercamento sinuoso, inspirado nas sete colinas de Uberaba. Conforme o arquiteto, o desenho foi pensado para remeter à identidade da cidade e melhorar a estética da avenida. Ele afirma que as áreas de travessia irregular permaneceriam fechadas e que a circulação de pedestres ficaria concentrada nas esquinas, onde já existem faixas e travessia elevada. A escolha dos materiais também considera a segurança, para que eventual colisão não agrave acidentes.

O projeto foi estimado em cerca de R$3 milhões. De acordo com Daniel, a intervenção teria 143 peças modulares e se estenderia por aproximadamente 1,5 quilômetro, entre a região da Concha Acústica e o Terminal Oeste, apenas no canteiro central. O valor equivale a menos de 4% da economia de R$80 milhões citada pela prefeita na licitação dos tubos da captação no rio Grande.

Apesar disso, o fato de haver um projeto doado não significa que a execução esteja garantida. A Prefeitura não informou se pretende aproveitar a proposta de Daniel Rodrigues, se trabalharia com solução própria da Secretaria de Planejamento, se adotaria outro projeto apresentado por profissionais externos ou se abriria algum procedimento específico para contratação. O município também não confirmou se a intervenção dependeria de licitação, estudo técnico complementar ou autorização formal da CAF para uso dos recursos economizados.

A indefinição repete um roteiro já visto em outros momentos. Em 2023, por exemplo, proposta apresentada à prefeita por Marcondes Freitas e Kadson Palhares defendia adaptações no corredor Leste-Oeste para recuperar áreas de estacionamento na avenida Leopoldino de Oliveira. Na mesma reunião, a então presidente do Instituto de Engenharia e Arquitetura, Alê Rôso, sugeriu retirar o gradil do canteiro central e realocá-lo nas calçadas, com ajardinamento e travessias livres apenas nos pontos adequados.

Em 2024, a substituição das grades voltou a aparecer dentro dos projetos apresentados pela Prefeitura para requalificação do Centro. Na ocasião, a administração municipal informou que a proposta para parte da Leopoldino incluía padronização de calçadas, substituição das grades do canteiro central por novas configurações paisagísticas verdes, implantação de ciclovias e substituição das estações do BRT ao longo da extensão do sistema.

O debate, portanto, não é novo. O que muda agora é a combinação entre a fala favorável da prefeita, a possível fonte de recurso a partir da economia informada pela própria administração e a existência de projeto já apresentado ao Executivo. Ainda assim, sem confirmação de uso da verba, sem estimativa oficial de custo, sem definição sobre o destino das grades e sem indicação de qual proposta será adotada, a retirada segue no terreno das intenções.

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