
A gravidez não foi planejada e só foi descoberta depois de uma sequência de exames para investigar uma alteração no fígado (Foto/Divulgação)
Conhecida nas redes sociais como “Rainha da Maisena”, a uberabense Letícia Ramos vive uma experiência que une a realização de um sonho a desafios pouco comuns na medicina. Aos cinco meses de gestação, ela precisa adaptar o tratamento da glicogenose, doença genética rara que interfere no metabolismo do glicogênio e exige o consumo frequente de amido de milho para manter os níveis de glicose no sangue, à geração de uma nova vida.
A gravidez não foi planejada e só foi descoberta depois de uma sequência de exames para investigar uma alteração no fígado. Segundo Letícia, o órgão chegou a triplicar de tamanho, o que despertou preocupação entre os médicos. Ela também apresentava sintomas como enjoos, vômitos e náuseas, mas a investigação inicial estava concentrada na alteração hepática.
Após realizar ressonância magnética, tomografia, ultrassonografia e outros exames sem identificar a causa do problema, a própria Letícia decidiu fazer um teste de gravidez. O resultado trouxe uma mistura de sentimentos. “Foi um momento inexplicável, pois o medo e a felicidade brigavam entre si dentro de mim. Eu não saberia o que esperar pela frente”, relata.
Nos primeiros meses, a gestação trouxe episódios mais intensos de hipoglicemia, caracterizados pela queda dos níveis de açúcar no sangue. A condição também provocou fraqueza muscular e maior desgaste físico, em um organismo que já enfrenta dificuldades para utilizar as reservas de energia.
Para controlar a glicose, o consumo de amido de milho cru precisou ser intensificado. No primeiro trimestre, Letícia passou a ingerir 50 gramas a cada três horas, inclusive durante a madrugada, totalizando aproximadamente 400 gramas por dia, além da alimentação habitual.
Agora, no final do segundo trimestre, o intervalo foi ampliado para quatro horas, mantendo a quantidade de 50 gramas por dose. O consumo diário está em torno de 300 gramas de amido de milho. A rotina também inclui suplementação intramuscular, cápsulas para gestantes e acompanhamento frequente da glicemia.
A alimentação passou a ter atenção especial às proteínas e aos carboidratos complexos, com aumento da suplementação de whey protein. Segundo Letícia, o objetivo é auxiliar no controle das hipoglicemias, na preservação da massa muscular e na recuperação da força física.
Ela também utiliza dois métodos de monitoramento da glicose: o sensor FreeStyle Libre e a medição por ponta de dedo, conhecida como destro. As avaliações são realizadas a cada três horas para acompanhar as variações e evitar descompensações durante a gravidez.
A gestação de pessoas com glicogenose exige planejamento e avaliação individualizada. Letícia explica que, antes de uma gravidez, é recomendado investigar possíveis alterações genéticas também no parceiro, para avaliar os riscos de transmissão da condição.
Como a gestação não foi planejada, a equipe recomendou a realização do teste pré-natal não invasivo (NIPT), exame que pode rastrear determinadas alterações cromossômicas. A realização está prevista para este mês.
Nas primeiras semanas, a falta de respostas sobre os riscos da gravidez aumentou a insegurança. Posteriormente, Letícia conseguiu acompanhamento fora de Minas Gerais com uma especialista em genética metabólica e uma nutricionista, que passaram a orientar o tratamento em conjunto com o obstetra responsável pelo pré-natal em Uberaba.
Segundo ela, a especialista explicou que já havia acompanhado outras gestações de mulheres com glicogenose, o que ajudou a reduzir o medo inicial. “Estou confiante agora, e fazendo tudo certinho para que esse sonho se realize da melhor forma possível”, afirma.
A história de Letícia ganhou repercussão nacional em 2022, quando ela contou nas redes sociais que precisava consumir amido de milho a cada quatro horas para controlar a glicogenose. A rotina chamou a atenção do público e fez com que ela passasse a receber mensagens de pacientes e familiares que enfrentam a mesma condição.
Atualmente, com cerca de 59 mil seguidores no Instagram, ela utiliza o espaço para compartilhar informações sobre a doença e acolher pessoas que ainda estão aprendendo a lidar com o diagnóstico.
A gravidez ampliou esse propósito. Letícia afirma que a Universidade de São Paulo (USP) pretende documentar seu caso e que também recebeu contato do Hospital Israelita Albert Einstein, em razão das particularidades da gestação.
A intenção é contribuir para a produção de conhecimento e ampliar as informações disponíveis para estudantes, pesquisadores, profissionais da saúde e outras mulheres com glicogenose que desejam engravidar.
Apesar das dificuldades enfrentadas no início, Letícia conta que atualmente vive a fase mais tranquila da gestação. As taxas estão controladas, os níveis de vitaminas estão adequados e ela conseguiu retomar a prática de exercícios físicos. “Hoje, no meu quinto mês, posso dizer que estou na minha melhor fase. Estou muito feliz, estou bem e estou gostando de cada momento dessa gestação única”, conta.
Para ela, compartilhar a experiência também significa abrir caminhos para outras mulheres. “Espero muito que todas as futuras mamães com glicogenoses possam saber o que fazer nessa fase tão linda que uma mulher pode viver”," finaliza.