A longa história de tentativas do casal em ter filhos e o sucesso de procedimento viram tema de livro que incentivará a prática
Foto/Álbum de família
Os pais biológicos com os solidários e o bebê, que se utilizou do útero solidário até o momento de nascer, no Mário Pálmério
Uberaba foi berço, no fim de agosto, para o primeiro parto por substituição de útero. O parto aconteceu no Mário Palmério Hospital Universitário, na sexta-feira (27). Os pais do bebê são Arlem e Bruna Junqueira, de Brasília, no Distrito Federal, porém, o casal tem familiares em Uberaba.
Em entrevista ao Jornal da Manhã, a obstetra que realizou o parto, Karina Sousa Lopes, explicou no que consiste um parto por substituição de útero. “O parto por útero de substituição é indicado quando a paciente, mãe biológica, comprovadamente, não pode gestar por problemas de saúde. Aí tem que ter a comprovação médica de que ela está impossibilitada de gestar. Sendo assim, ela tem a possibilidade de solicitar um útero de substituição, uma doadora de útero [onde é introduzido o embrião do casal biológico]”, explica.
Segundo a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), a pessoa que irá doar o útero tem que ser de parentesco legal de até 4º grau, como irmãs, avós, tias e primas, podendo ser adotiva. “Foi um parto tranquilo, muito emocionante, pela presença dos pais biológicos, que depois de uma longa jornada de tentativas sem sucesso conseguiram ter como resultado o filhinho deles”, conta Karina.
A busca pela gravidez começou há cerca de oito anos e teve até promessa
A história da paternidade de Arlem e Bruna começou há cerca de oito anos. O casal tentou engravidar por diversas vezes, porém, teve dificuldade desde o primeiro ano. Apostando na espiritualidade, em uma viagem à Ilha da Pedra Furada, em Itacaré/BA, Bruna encontrou uma santa, que teria falado para o casal fazer uma promessa para alcançar o sonho. “A minha esposa fez a promessa de que quando nós tivéssemos filhos, nós voltaríamos lá para agradecer. Tudo começou aí. Isso foi há sete anos”, explicou.
O tempo passou e mesmo após três cirurgias para tratar a saúde do útero de Bruna, a gravidez ainda não se tornou tangível. “Eu fiz vários testes de espermograma e meu esperma continuava normal; dependia dessa parte do útero dela, mas a trompa de um lado estava entupida”, relata Arlem.
Ele ainda conta que optaram por fazer uma fertilização in vitro, em Ribeirão Preto, 5 anos atrás, e ainda assim não conquistaram o objetivo desejado, o que deixou Bruna mais frustrada. “A gente continuava tentando, eu falava para ela não desanimar. Fizemos outros embriões e deixamos congelados; esses embriões ficaram com uma qualidade melhor”, conta o companheiro.
Todavia, surgiu uma luz. Em um evento de família, o casal conheceu Evelyny da Silva, que é esposa de um primo de Arlem. Na ocasião, ela contou ter o sonho de ser uma barriga solidária, inspirada em uma conterrânea, assunto que chamou a atenção de Bruna. Porém, a hipótese ainda demorou um pouco para ganhar forma.
Após o casal voltar para Brasília, Bruna ainda passou por mais uma situação, depois da terceira cirurgia, que a deixou ainda mais desesperançosa. “O médico falou que ela teria que conseguir alguém para gestar o filho, pois não teria condição. Então, o mundo caiu, ela chegou em casa chorando muito”, descreveu Arlem.
Dez meses após o acontecido, um parente de Arlem intermediou o contato entre o casal e a Evelyny, que se tornou a barriga solidária. Depois disso, a mulher entrou em contato, explicando que poderia ser a barriga solidária. Arlem contou que foi necessário fazer uma transferência dos embriões de Ribeirão Preto para Brasília, porém, quando tudo estava pronto, veio a pandemia para deixá-los ainda mais ansiosos. No final de dezembro de 2020, quando os casos de Covid-19 apresentaram desaceleração, o procedimento foi feito.
Segundo Arlem, entre os muitos capítulos da história, o anúncio da gravidez aconteceu em outra viagem para a Ilha da Pedra Furada, que foi cheia de percalços, tendo o casal sofrido um acidente de carro grave. Porém, não haveria lugar mais especial para receber a notícia.
Outro fato que faz parte da jornada é que, infelizmente, o pai de Arlem e avô da criança, faleceu antes de conhecer o netinho. Mas a família do pequeno tem certeza que o vovô será um grande anjo da guarda protetor. “Um amigo meu, de Florianópolis, fez uma música para o Davi e eu compus metade da letra dela, e no final eu faço uma homenagem para o meu pai”, afirma.
A história vai virar um livro chamado “Barriga Solidária: Um ato de amor”, escrito por Juscelino Ferreira, marido de Evelyny. Todos os envolvidos esperam que sirva de inspiração para aqueles que estão tentando ter filhos e para as mulheres que têm dificuldade de engravidar e não sabem como funciona o processo de parto por substituição de útero.