Foto/Sandro Neves
Matusalém José Alves, um dos donos da rede Zebu Carnes Supermercados, que na semana passada inaugurou a sua 8ª unidade na cidade
Considerada por alguns especialistas a maior crise desde o período pós-industrialização, a situação econômica enfrentada pelo Brasil, desde o fim de 2014, resultou no fechamento de mais de 220 mil empresas em todo o país, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Com isso, o grupo de desempregados praticamente dobrou, passando de 6,75 milhões para 13,23 milhões de pessoas sem emprego em 2017. No entanto, neste mesmo período, remando contra a maré de incerteza econômica, a rede Zebu Carnes Supermercados, fundada como Casa de Carnes Zebu em 1992, com apenas dois colaboradores, foi capaz de abrir nada menos que quatro novas lojas nos bairros Jardim Esplanada, Pacaembu 2, Boa Vista e, agora, no Valim de Melo. Hoje está com oito estabelecimentos, gerando emprego e renda para 800 funcionários, e já se prepara para inaugurar, até o fim do ano, a sua 9ª filial. Para revelar o segredo de deste crescimento tão sólido, em plena crise, o Jornal da Manhã traz entrevista com Matusalém José Alves, que começou essa trajetória com o irmão Moisés João Alves, que já entregaram aos filhos Bárbara, Renzo, Tiago e Mouzas Alves, hoje diretores na rede, a chave do sucesso. Com as sócias Maria Hilda Alves e Vanderlita Aparecida Alves e a diretora-geral Patrícia, a expansão dessa empresa familiar é certa.
Jornal da Manhã – Esta semana o senhor inaugurou a 8ª loja da rede Zebu Carnes, mas iniciar essa trajetória não foi fácil... Como o senhor começou nesse ramo de gêneros alimentícios?
Matusalém José Alves – Eu vim da área de supermercados, onde comecei a trabalhar com 15 anos, de auxiliar de reposição até gerente de operações. No passado, fui executivo do Grupo Pão de Açúcar por 13 anos, depois trabalhei em outra empresa de supermercados, a Coopercitrus, e posteriormente a isso deixei os supermercados para trabalhar somente com carnes. Na ocasião, eu e o Moisés João Alves, meu sócio até hoje, montamos em Uberaba a Casa de Carnes Zebu, que era um ramo que gostávamos e no qual meu irmão já trabalhava. Durante algum tempo trabalhamos com a Casa de Carnes, sempre evoluindo e angariando clientes pela qualidade. Só que o mercado sinalizou uma outra via, justamente a concorrência de supermercados trabalhando muito forte o setor de carnes, e resolvemos ampliar. Foi quando nasceu a primeira loja, no bairro Estados Unidos. Esse foi o início da nossa trajetória, lógico que com Uberaba expandindo e evoluindo também tivemos a necessidade de acompanhar o mercado. Isso sinalizou que podíamos expandir a rede. Passados dois anos, vimos a oportunidade de abrir a segunda loja, no bairro São Benedito. A partir daí vem a história que todos já conhecem, abrimos a terceira e a quarta, e a partir da quinta loja mudamos de estratégia. Precisávamos padronizar as lojas para atender o cliente cada dia mais exigente por mais conforto, lojas mais aprazíveis para quem quer se sentir bem.
JM – Ao contrário de outros segmentos produtivos afetados duramente pela crise econômica no país, o supermercadista vem expandindo sua atuação, crescendo e se multiplicando. Esta semana, por exemplo, foram inauguradas duas lojas novas em Uberaba, sendo uma delas da rede Zebu Carnes. Além disso, o Bahamas já anunciou a quarta loja na cidade, o LS Guarato duplicou recentemente seu espaço físico e os supermercados menores também estão abrindo novas unidades na cidade. A que o senhor atribui esse fenômeno?
Matusalém Alves – Entendemos que a crise é para todos e não estamos fora disso. A diferença é que o varejo é muito dinâmico e percebemos o crescimento pelo próprio dinamismo do setor supermercadista, mas existe uma situação muito difícil para angariar clientes e fazer o tíquete médio que você necessita. O supermercado tem um custo operacional muito alto, acima da média dos demais segmentos, mas acreditamos que é necessário ir em frente. Creio que nós, como todo supermercadista, temos isso como objetivo, ir em frente e crescer, porque crescemos ou voltamos atrás. Não dá para estacionar em quase nada na vida, e com supermercados não é diferente. Obviamente que gêneros alimentícios têm uma demanda mais forte de procura, mas em tempos de crise as pessoas consomem menos ou trocam de produto, e nós temos que nos adequar à necessidade e à conveniência do cliente, sempre.
JM – Os novos controladores das operações brasileiras do Walmart anunciaram recentemente que estudam a transformação da rede em atacarejo. Já o Grupo Pão de Açúcar tem diversificado suas operações para investir em supermercados regionais, em substituição aos hipermercados. Há, ainda, redes locais ou regionais que priorizam lojas de bairro, como no seu caso. Como o senhor vê essa pluralidade de opções para o seu segmento e qual é a fórmula de sucesso para a prosperidade do setor supermercadista?
Matusalém Alves – Vemos que o comportamento do Walmart é justamente em razão da crise, pela falta de faturamento necessário para a rede de grandes lojas, e percebemos que a forma de consumir hoje mudou muito. O cliente quer comprar perto de casa, isso não é uma tendência, é uma realidade, pela própria pressa do cliente em razão dos compromissos e do pouco tempo que tem. Antigamente, a dona de casa ia ao supermercado uma vez por mês e fazia a sua compra mensal. Hoje, se vai ao supermercado todo dia, para comprar o pão para o café da manhã ou o lanche da tarde. Agora, como você vai ao supermercado com essa frequência se ele estiver distante de casa? Assim, você vai deixar de ir ao supermercado para ir a uma padaria ou pequena loja de conveniência. Então, o segredo é estar perto do cliente ou partir para o e-commerce. Nós escolhermos estar perto, porque a experiência de compra não pode ser abandonada. Todos nós gostamos de ir a uma loja, ao shopping, um bar ou restaurante para comer alguma coisa ao invés de pedir em casa. Até porque precisamos nos socializar, e nos socializamos em qualquer lugar, no cinema, no bar, na praça ou evento e em um supermercado. Esse foi o caminho que escolhemos e acreditamos estar no rumo certo.
JM – Vivemos a era das startups, das redes sociais e do e-commerce. No caso específico de supermercados, acredita que essas ferramentas podem alavancar vendas? No futuro haverá lugar para loja física semelhante aos supermercados tradicionais que conhecemos hoje, ou os consumidores tendem a migrar para compras virtuais de gêneros alimentícios, produtos de limpeza, etc.?
Matusalém Alves – Acho que esse caminho não tem volta. O e-commerce não é tendência, é uma realidade também. Entendemos que é por onde se compra todo tipo de produto perecível, e os supermercados também estão voltados para essa nova situação. Há redes que não estão tão focadas no e-commerce porque estão muito centralizadas e fica difícil essa migração para a internet em razão de toda a estratégia de logística para entrega, o que pode gerar um custo muito alto. O e-commerce é uma realidade, mas temos que pensar que as pessoas vivem com outras pessoas, temos que conviver. Temos necessidade de ver e conviver com outras pessoas, seja em casa, seja na rua. Então, a experiência de estar fora de casa, em um bom restaurante ou fazendo uma compra, em que você escolhe os seus produtos, não vai acabar. Nos socializamos quando estamos na fila do caixa do supermercado, e as pessoas precisam disso, de atenção, o que só conseguimos se estamos no meio de gente. O e-commerce é real, mas, se estamos perto, podermos proporcionar uma experiência gostosa para o cliente.
JM – Esta semana o senhor inaugurou a 8ª loja da rede e já tem o projeto de, até o fim do ano, abrir mais uma filial. Uberaba comporta essa expansão? Como se deu esse planejamento?
Matusalém Alves – Nós temos que ocupar o espaço, porque precisamos crescer e não podemos estagnar, por isso o processo é feito com uma pesquisa de mercado nesse setor para avaliar como está a concorrência em cada região e a necessidade do cliente, para efetivamente estarmos perto dele. Nosso produto tem uma chamada muito interessante, porque a carne está ligada à questão da qualidade, e isso nós conseguimos, ao longo do tempo, garantir essa oferta que agora o cliente enxerga. É importante para nós enxergar o que o cliente quer que esteja perto dele para oferecer, foi isso que nos trouxe até o Valim de Melo. As pessoas sempre pediram uma loja aqui, através das nossas redes sociais. E o mesmo está acontecendo com a loja do Fabrício. É uma negociação que já vem ocorrendo há mais de quatro anos, não foi uma decisão tomada ontem, e que conseguimos fechar há cerca de três meses, pois acreditamos demais naquela região, que entendemos ter carência de supermercados. Além disso, Uberaba expande na horizontal, com condomínios fechados ou a entrega de casas populares, o que está acontecendo não só aqui, mas em todo o país, e é isso que vai fazer com que a gente evolua e cresça. As pessoas dos conjuntos Rio de Janeiro, Anatê e Beija-Flor, onde já estamos, precisam comprar perto de casa, pelo tempo e custo para locomoção até o centro da cidade.
JM – Estamos em plena Copa do Mundo, com a Seleção Brasileira classificada para a próxima fase. Até que ponto o Mundial interfere nas vendas dos supermercados, considerando também as alterações constantes no horário de funcionamento do comércio?
Matusalém Alves – Essa interrupção, obviamente, cria um grande transtorno. Para alterar o trabalho dessa forma e contemplar o funcionário, para ter esse intervalo e depois retomar o atendimento, é muito complicado, mas é uma realidade. As pessoas precisam se divertir. Com crise ou sem crise, o futebol é uma paixão do brasileiro, e ainda bem. O brasileiro tem um motivo para comemorar com o futebol e a Seleção Brasileira indo bem, porque na questão econômica e política temos muito pouco para comemorar. Dependendo do horário do jogo, isso pode incentivar a venda ou pode atrapalhar, mas vamos caminhando assim.
JM – No Rio de Janeiro foi sancionada recentemente uma lei que proíbe o uso de sacolas plásticas pelos supermercados, que terão 18 meses para se adaptar. Acredita que essa medida é adequada? Caberia lei similar em Uberaba?
Matusalém Alves – Acredito que a sacolinha foi uma revolução, pela comodidade e praticidade para o cliente de já poder passar no caixa e ter sua mercadoria toda embalada. Nós vivemos disso, de procurar benefícios, praticidade e agilidade. Creio que tudo que pudermos trocar, seja a sacolinha, as embalagens de produtos, seria positivo. Todos os produtos que consumimos, de maneira geral, vêm em um plástico, em uma lata ou em pet, o que será difícil de acabar, mas vamos achando as soluções. Acredito que se abolirmos a sacola por outro produto que não seja nocivo ao meio ambiente, como a sacola biodegradável, é muito bom. Hoje trabalhamos com a sacola oxibiodegradável, que se desmancha em menor prazo e não é um produto que vai ficar 100 anos na natureza. Isso representa que nós já evoluímos e avançamos. Agora, entendo que a troca da sacola plástica por sacolas retornáveis pode criar outro problema. Hoje se fala em contaminação cruzada, que se dá quando você tem uma sacola que usa todos os dias quando vai ao supermercado, onde carrega carne, detergente, fruta, e no dia seguinte vai de novo com a mesma sacola, e não vejo ninguém falando sobre a questão sanitária. Acho que o mundo precisa descobrir uma solução para criar sacolas e embalagens que não agridam a natureza. Estamos perto disso, porque já existe a sacola biodegradável, que infelizmente é muito cara, mas em um curto período de tempo nós vamos ter essa solução, que não seja deixar o cliente sem opção de levar suas mercadorias para casa.
JM – Terminando a Copa, teremos eleições no Brasil. Quais as suas perspectivas para a economia a partir de 2019, com novos governantes ascendendo ao poder?
Matusalém Alves – Não podemos olhar a política nem de cima, nem de longe, nós é que fazemos política. Então, ela é necessária e o que nós, cidadãos, eleitores e sociedade, precisamos fazer é participar, como candidatos, apoiando um bom candidato e votando corretamente, dando a nossa opinião e cobrando. Acho que nós, enquanto sociedade, temos que entender que o político não é um ser que vem do espaço, de Marte, ou de onde quer que seja. Político é produto do meio em que vivemos, não dá para ficarmos simplesmente criticando e não participar. Criticar é fácil, o que precisamos é de participação. Entendemos que sem a política não vamos conseguir resolver o problema do país. Ou seja, o que vai alavancar o Brasil é um Congresso bem posicionado, mais firme, coerente, honesto e voltado para as necessidades econômicas do país e do povo, e nós temos que participar desse processo. Com as eleições vindo aí, todos nós temos que nos manifestar, procurar o melhor candidato e fazer valer e cumprir a sua vontade, procurando um candidato que possa nos representar bem, porque depois não adianta reclamar. Só pode cobrar quem participou.
JM – Seu nome já foi cogitado para disputa eleitoral tempos atrás. O senhor considera a possibilidade de vir a disputar eleições futuramente? Qual cargo o seduz? Prefeito, deputado, vereador...
Matusalém Alves – Como eu disse, não podemos olhar a política nem de cima, nem de longe, temos que participar, e essa é minha forma de trabalhar, participando efetivamente da política de um jeito ou de outro. Obviamente que nós estamos em um momento em que precisamos olhar para dentro da empresa, mas isso não quer dizer que não vamos trabalhar com a política. Temos que entender que precisamos do bom político para podermos escolher, e temos que ter também os empresários para gerar emprego, renda e trabalhar o social, como nós fazemos. Então, neste momento, para nós, é isso, é poder trabalhar a nossa empresa em um período de crise para fazer com que ela tenha sustentabilidade, sem deixar de enxergar também a política, tentando colocar bons nomes para vermos a cidade e o país se desenvolvendo. Não vamos olhar isso de longe, teremos realmente uma participação, não como candidato, mas tentando escolher a melhor pessoa para administrar no âmbito municipal, estadual ou federal. Neste momento, não temos condições de pleitear nada que não seja além dessa participação e o trabalho na empresa, fazendo com que ela tenha o resultado que precisa. E o futuro é que vai mostrar o caminho para nós.