Psicóloga recomenda menos cobrança por notas e mais escuta sobre receios, dificuldades e necessidades dos estudantes
A ansiedade é uma reação esperada diante de uma avaliação importante e pode ajudar na organização da preparação (Foto/Reprodução)
A proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pode intensificar a ansiedade, a insegurança e a autocobrança entre os estudantes que se preparam para ingressar na universidade. Além da rotina de estudos, os candidatos precisam lidar com expectativas familiares e sociais, medo de não alcançar a nota desejada e incertezas sobre o futuro.
Segundo a psicóloga Thais Pereira, o processo de ingresso na universidade envolve desafios que vão além do desempenho acadêmico, como a tomada de decisões, o gerenciamento das expectativas e o enfrentamento das frustrações. A dificuldade aumenta quando o estudante passa a enxergar o exame como determinante para toda a sua trajetória. “Como para a maioria dos candidatos, o processo do Enem faz parte de um projeto de vida, pode-se construir um ideal de que a vida depende deste processo”, explica.
A ansiedade é uma reação esperada diante de uma avaliação importante e pode ajudar na organização da preparação. No entanto, quando se torna intensa ou persistente, pode comprometer tanto a saúde mental quanto o desempenho do estudante.
Alterações no sono e no apetite, dificuldades de concentração, manifestações físicas e pensamentos invasivos estão entre os sinais que merecem atenção. Para Thais, observar esses sintomas é importante para identificar o momento de buscar apoio. “Se os sinais e sintomas de ansiedade atrapalham a funcionalidade diária, persistem e impactam sono, apetite, concentração, com pensamentos invasivos e alterações físicas, a ansiedade provavelmente extrapolou do comum ao cenário de avaliação”, alerta.
A psicóloga ressalta que não é necessário esperar que o sofrimento se agrave para procurar ajuda. O reconhecimento precoce dos sinais pode contribuir para reduzir os impactos emocionais durante a preparação e a realização da prova.
A cobrança por resultados pode partir tanto do próprio estudante quanto das pessoas ao redor. Para a psicóloga, é importante que os candidatos reconheçam a diferença entre os próprios objetivos e as expectativas sociais, sem transformar a aprovação em uma condição para se sentirem capazes. “As expectativas são inevitáveis neste cenário, entretanto a retomada do processo presente e tratativas do que é possível é um caminho importante”, orienta Thais.
A profissional também chama a atenção para a autocobrança excessiva, que pode prejudicar o rendimento mesmo de estudantes bem preparados. Como estratégia, recomenda estabelecer metas possíveis, evitar comparações constantes e recordar experiências anteriores de enfrentamento de frustrações. “A ideia de tudo ou nada é extrema e não corresponde à realidade”, afirma.
O apoio familiar é importante durante a preparação, mas cobranças excessivas podem aumentar a pressão enfrentada pelos jovens. Em vez de concentrar as conversas apenas nas notas e nas chances de aprovação, pais e responsáveis podem procurar entender as dificuldades, os receios e as necessidades dos filhos. “Um bom caminho é se aproximar buscando escutar como o jovem tem se preparado, quais seus receios e necessidades de apoio”, recomenda a psicóloga.
Thais também orienta os familiares a respeitarem os limites dos estudantes e a separar suas próprias expectativas dos objetivos dos filhos. O apoio pode incluir ajuda na organização do tempo e incentivo ao autocuidado, sem transformar a preparação em uma fonte constante de tensão.
A procura por acompanhamento psicológico é indicada quando a angústia se torna persistente e interfere na rotina. Entre os sinais citados pela profissional estão choro frequente, pensamentos intrusivos com conteúdo pessimista ou destrutivo, alterações no sono e no apetite, dificuldades de memória, ansiedade intensa e mal-estar.
A antecipação constante de cenários negativos e as inseguranças que levam o estudante a questionar continuamente suas chances no processo seletivo também merecem atenção.
Para Thais, o cuidado não precisa ficar restrito aos momentos de crise. Reconhecer as próprias dificuldades e procurar apoio quando necessário são medidas que podem ajudar o estudante a atravessar o período de preparação sem negligenciar a saúde mental.