
Na vida adulta, a dificuldade de aceitar críticas, reconhecer erros e enfrentar frustrações pode aparecer tanto no trabalho quanto nos relacionamentos (Foto/Reprodução)
Ter emprego, pagar as próprias contas e assumir responsabilidades não significa que uma pessoa saiba lidar bem com as próprias emoções. Na vida adulta, a dificuldade de aceitar críticas, reconhecer erros e enfrentar frustrações pode aparecer tanto no trabalho quanto nos relacionamentos. E, ao contrário do que muita gente imagina, amadurecer não depende apenas da idade.
Segundo o psicanalista e pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Rodrigo Silveira, maturidade emocional não significa deixar de sentir raiva, ciúme, medo ou insegurança, mas aprender a lidar com esses sentimentos sem deixar que eles controlem as próprias atitudes. “Uma pessoa emocionalmente madura não é aquela que deixou de sentir raiva, medo, ciúme, tristeza ou insegurança”, explica. Para ele, a diferença está na capacidade de compreender o que essas emoções despertam e evitar que elas resultem em atitudes impulsivas ou prejudiciais.
Isso ajuda a entender por que duas pessoas com idades semelhantes podem reagir de maneiras tão diferentes diante de uma mesma situação. Enquanto uma consegue ouvir uma crítica e refletir sobre ela, outra pode interpretar o comentário como uma ofensa e reagir com irritação.
Uma pessoa pode ter estabilidade financeira, ocupar um cargo de liderança e cuidar de diferentes responsabilidades, mas ainda assim ter dificuldade para admitir que errou ou aceitar que nem sempre tem razão.
De acordo com Silveira, a maneira como cada um aprendeu a lidar com limites e frustrações ao longo da vida pode influenciar essas reações. Quando uma crítica é entendida como uma ameaça ao próprio valor, por exemplo, a pessoa pode se preocupar mais em se defender do que em compreender o que foi dito. Esse comportamento também pode aparecer em discussões nas quais alguém atribui toda a culpa ao outro, encontra justificativas para as próprias atitudes ou trata qualquer discordância como falta de respeito.
A dificuldade de lidar com um “não”, uma mudança de planos ou uma situação que não sai como esperado pode provocar reações desproporcionais. Nos relacionamentos, isso também pode se manifestar na tentativa de controlar o outro, na dificuldade de respeitar limites ou na interpretação de um pedido de espaço como sinal de rejeição.
O psicanalista ressalta que ninguém age de forma equilibrada o tempo todo. Um episódio de irritação ou uma reação impulsiva não define, por si só, a maturidade de alguém. O sinal de alerta está na repetição desses comportamentos e nos prejuízos que eles provocam na convivência. “A maturidade emocional aparece menos na ausência de conflitos do que na maneira como lidamos com eles”, afirma Silveira.
Isso significa que amadurecer não é evitar discussões ou nunca se sentir magoado, mas conseguir reconhecer a própria participação em um conflito, ouvir o outro e, quando necessário, rever atitudes. Também envolve entender que sentir ciúme, medo ou insegurança não dá a ninguém o direito de controlar as escolhas de outra pessoa.
Reconhecer comportamentos que se repetem é um passo importante para mudar a forma de lidar com as emoções. Muitas vezes, uma situação do presente desperta sentimentos ligados a experiências anteriores, e a reação acaba sendo mais intensa do que o acontecimento parece justificar.
Uma crítica no trabalho pode, por exemplo, despertar a sensação de não ser bom o suficiente. Já o afastamento de alguém pode trazer de volta o medo de ser rejeitado. Quando a pessoa não percebe essas conexões, pode reagir sem compreender por que determinada situação a afetou tanto.
Silveira explica que o autoconhecimento pode ajudar a identificar esses padrões. A Psicanálise é um dos caminhos possíveis para compreender a própria história e construir outras formas de responder às situações do cotidiano.
E não é porque alguém passou anos reagindo da mesma maneira que precisa continuar fazendo isso. “Não estamos condenados a repetir indefinidamente os mesmos modos de funcionamento”, destaca o especialista.
Além dos conflitos cotidianos, a maturidade também envolve a maneira como cada pessoa lida com as expectativas sobre o futuro. Conseguir estabilidade financeira, ter um relacionamento, comprar um imóvel, construir uma família e alcançar sucesso profissional são metas que muitas vezes aparecem associadas a determinadas idades.
Quando essas expectativas se transformam em regras, quem não alcança esses objetivos no tempo esperado pode sentir que fracassou ou ficou para trás, mesmo que esteja construindo uma trajetória coerente com a própria realidade. “Há um certo mal-estar na sociedade e na cultura profundamente relacionado às expectativas sociais que organizam a nossa compreensão da vida adulta”, observa Silveira.
O problema é que cada pessoa enfrenta condições financeiras, familiares e profissionais diferentes. Comparar trajetórias sem considerar essas diferenças pode transformar escolhas pessoais em cobranças permanentes.
Para o psicanalista, ser adulto não significa ter todas as respostas ou chegar a uma fase em que tudo esteja resolvido. A vida envolve mudanças, perdas, dúvidas e decisões que precisam ser revistas ao longo do tempo. “A maturidade também consiste em fazer as pazes com o fato de que a vida não se resolve de uma vez por todas”, finaliza.