INSTITUTO DE CEGOS

Relatos contestam denúncia contra o ICBC e alertam para risco à assistência

Denunciantes alertam sobre queda nas doações e impactos já sentidos pelos assistidos, como o corte de energia por falta de pagamento, que interrompeu as atividades nesta segunda (15)

Larissa Prata
Publicado em 15/06/2026 às 17:35
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Operação desencadeada pelo Ministério Público de Minas Gerais preocupa a comunidade do Instituto de Cegos do Brasil Central (ICBC), em Uberaba. Em meio às denúncias em apuração, a instituição já sofre o impacto na assistência. Relatos feitos ao Jornal da Manhã apontam que a energia foi cortada no local devido à falta de pagamento, atingindo centenas de assistidos, que foram dispensados das atividades. Importa destacar que as contas do instituto estão atualmente bloqueadas. Paralelo a isso, há relatos também de possível perseguição como motivação para as investigações feitas pela promotoria.

Segundo fontes ouvidas pelo JM, que optaram por manter suas identidades em sigilo, a denúncia que levou à investigação teria partido de uma ex-colaboradora após um período de desgaste na relação com integrantes da equipe e o posterior encerramento do vínculo com a instituição.

Contudo, o Ministério Público não informa a origem da denúncia. Ao divulgar a operação, o órgão informou que a apuração teve início após uma denúncia recebida em maio e foi aprofundada com a análise de documentos e a coleta de depoimentos de testemunhas que trabalharam no instituto.

“As relações profissionais já estavam desgastadas havia algum tempo, com dificuldades de convivência com diferentes pessoas da equipe. O receio é que uma situação profissional tenha se transformado em acusações que agora atingem toda a instituição”, afirma uma das pessoas ouvidas pelo JM.

Os relatos não questionam a necessidade de investigação, mas defendem cautela na divulgação e na interpretação das suspeitas enquanto os fatos ainda são apurados. A preocupação apontada é que a entidade seja tratada como culpada antes da conclusão do procedimento.

“Ninguém questiona o direito e o dever do Ministério Público de investigar. O que preocupa é que as suspeitas estejam sendo recebidas como fatos comprovados antes da conclusão da apuração. A instituição já sofre consequências, mas quem sente primeiro esse impacto são as pessoas que dependem dos atendimentos”, declara outro entrevistado.

Ambos citam os "juízes da internet" que condenam rapidamente, trazendo prejuízos a longo prazo para a instituição, que atua há mais de oito décadas no atendimento a pessoas com deficiência visual não só em Uberaba, mas também recebendo pessoas da região. Para algumas delas, o único apoio e porto-seguro numa cidade desconhecida é justamente o ICBC, que traz sensação de pertencimento, acolhimento e comunidade.

Esta não é a primeira vez que dúvidas sobre a administração do ICBC são levadas ao Ministério Público. No ano passado, outra manifestação foi apresentada por uma ex-colaboradora da entidade.

Na ocasião, o caso não teve os mesmos desdobramentos públicos observados agora, como o cumprimento de mandados, o afastamento de dirigentes e as restrições determinadas pela Justiça. Segundo os denunciantes, a manifestação anterior também teria ocorrido após conflitos relacionados ao encerramento de um vínculo profissional. 

Reflexos nas doações

Os entrevistados afirmam que as doações destinadas ao ICBC, que já seriam insuficientes para custear todas as atividades, diminuíram após a deflagração da operação. Segundo os relatos, a associação da imagem da entidade às suspeitas de desvios pode afastar pessoas e empresas que contribuíam com o instituto.

"Quem vive com o pires na mão sabe o que é sofrer para pagar contas. As doações nunca foram suficientes para todas as necessidades e agora essa ação do Ministério Público criou sobre o instituto a marca de que existiria desvio de dinheiro, embora isso ainda esteja em investigação. Há o temor de que pessoas e empresas deixem de ajudar antes mesmo de qualquer conclusão", lamenta um deles. 

Um dos impactos já sentidos é com a quitação de contas. Nesta segunda-feira (15), o ICBC informou a suspensão temporária dos atendimentos em razão da falta de energia elétrica na sede. Importa destacar que as contas do instituto estão bloqueadas devido à operação em andamento, o que impede a movimentação financeira atualmente. 

Procurada pelo Jornal da Manhã, a Cemig não confirmou a suspensão do fornecimento nem a existência de débitos relacionados ao imóvel.

A concessionária limitou-se a informar que, “caso o cliente esteja sem energia por suspensão do fornecimento, ele deve quitar ou negociar os débitos e solicitar religação pelos canais de atendimento da Cemig, como o WhatsApp 31 3506-1160”.

A reportagem também solicitou informações sobre eventual débito, o período a que se referem as contas e a previsão para o restabelecimento da energia, mas esses dados não foram fornecidos.

Operação apura cinco repasses

A Operação Fora de Foco foi deflagrada pelo MPMG na quarta-feira, 10 de junho. A pedido do órgão, a 1ª Vara Criminal de Uberaba autorizou o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão na sede do instituto e em endereços ligados aos investigados.

A decisão judicial também determinou o afastamento temporário de dirigentes e gestores ligados à administração da entidade, além de impor restrições ao acesso a documentos, sistemas internos e à movimentação de recursos.

Segundo o Ministério Público, são investigados possíveis crimes de estelionato contra entidade de assistência social, falsidade ideológica, uso de documento falso e associação criminosa.

A apuração alcança cinco repasses municipais e estaduais realizados nos últimos dois anos, que somam mais de R$ 2 milhões.

O MPMG afirma ter identificado indícios de que recursos destinados a projetos assistenciais, educacionais e de saúde teriam sido utilizados em finalidades ainda não esclarecidas. Também são apuradas possíveis irregularidades em prestações de contas, uso de documentos falsos e cadastramento indevido de beneficiários.

O órgão ressalta que a investigação permanece em andamento e que ainda não há conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos investigados. As suspeitas deverão ser analisadas ao longo do procedimento, com garantia do direito de defesa.

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