A cadeia no Brasil foi feita para ressocialização do detento, mas não funciona assim. É simplesmente um depósito de infratores
“A cadeia no Brasil foi feita para ressocialização do detento, mas não funciona assim. É simplesmente um depósito de infratores, porque a própria sociedade quer que se enfie o criminoso lá e fique por isso mesmo, que ele não saia nunca mais.” A opinião é do delegado regional de Segurança Pública, Francisco Eduardo Gouvêa Motta, ao revelar que boa parte das pessoas que deixam a penitenciária volta, sim, a delinquir. "O que temos notado é a falta de perspectiva. Muitas vezes as pessoas que saem das cadeias, mesmo que elas tenham interesse na ressocialização, a própria estrutura social dificilmente deixa isto acontecer”, diz.
Para o delegado, é difícil às pessoas colocarem dentro de casa, ou em uma empresa, pessoa que já cumpriu pena por roubo, furto, sequestro ou tráfico. Francisco entende que a sociedade brasileira não tem estrutura de recuperação do preso. “Infelizmente, é a realidade que a gente vive e a culpa é de todos, do sistema e da sociedade. O sistema funciona em razão da sociedade”, comenta.
Na opinião do delegado, a polícia é apenas uma parte do sistema de segurança, em cujo final está o presídio. No entendimento dele, muitas coisas precisariam ser mudadas, entre elas, criar condições para o detento trabalhar. “Ele não pode ficar à toa, vivendo à custa do Estado, cumprindo pena na cadeia. As cadeias deveriam voltar a ser aquilo que eram antigamente, penitenciárias agrícolas”, diz, ao lembrar o presídio em Neves, próximo a Belo Horizonte, que era chamado de penitenciária agrícola, onde os presos trabalhavam na fazenda da própria detenção. Ele diz que no local havia também parte de carpintaria e de metalurgia, além de cursos profissionalizantes, como de cozinheiro, carpinteiro, marceneiro e serralheiro. “Nessa penitenciária havia ressocialização”, avalia.
Finalizando, o policial civil diz que hoje são raros os que cometem crime e não voltam a delinquir, alguns impelidos pela própria situação social por que passam, outros por necessidade e outros por gostarem mesmo. “Aquela pessoa que conseguir fazer a ressocialização de um preso estará contribuindo muito para a sociedade", conclui o delegado.