Foto/Jairo Chagas

Quase quarenta anos de seca sem solução. Assim define o vice-prefeito de Uberaba, Moacyr Lopes (Solidariedade), sobre o momento atual. Com precisão cirúrgica de quem entende bem sobre o assunto, Moacyr, que é engenheiro e químico, esteve no estúdio da Rádio JM, em entrevista com os jornalistas Lídia Prata e Wellington Cardoso, no Pingo do J de quinta-feira (23). Sem pudores e com o verbo solto, como de costume, Moacyr também deixou claro que seu projeto político tem data de validade e, por isso, em suas palavras, Uberaba precisa perder o complexo “de vira-lata” e começar a pensar grande para resolver problemas, sem se preocupar com quem vai ser o pai da criança bonita. Confira a entrevista na íntegra.
RÁDIO JM - Qual a realidade do vídeo divulgado onde apresenta um nível razoável de água no rio Uberaba?
MOACYR LOPES - Aquele lugar eu creio que é perto do Ribeirão Saudade. Tem uma prainha na região e pode ser que a pessoa confundiu. A pessoa leiga vê aquele tanto de água e acha que é muito. Eu até fiz uma conta e mandei para vocês, onde calculei rapidamente a vazão do rio Uberaba. A vazão do rio tem velocidade de 1 km/h, tem uma largura de dez metros com 30 centímetros de profundidade e dá 900 litros por segundo, que é o que chega na captação. Eu estou percorrendo o rio direto. Até eu e minha esposa, sábado, estávamos andando na beira do rio. Em todos os lugares que você vai esse número se mantém, sendo que 60% desta água vem do rio Claro. Na Prainha, a lâmina d’água está com 15 centímetros. Você olha lá a largura correndo, mas de profundidade, só 15 centímetros. Nós precisamos de 1.200 litros por segundo e estão chegando apenas 900 litros por segundo. Então, estamos apenas com 75% do necessário. Isso está sendo medido direto. Temos medidores na captação. Então, apesar de parecer muita água, aquela vazão é a mesma que chega à captação.
JM - É possível lançarmos mão da perfuração de poços profundos em Uberaba, como faz a Petrópolis cervejaria?
ML - Essa questão é que a curto prazo temos que fazer um poço profundo. Às vezes, fica confuso isso, mas não sou favorável à decisão definitiva ser o poço profundo. O nosso projeto, que estava na campanha, envolve a perfuração de quatro poços de forma imediata e paliativa. Isso está programado e daria em torno de 240 litros por segundo, um incremento de 20% na oferta de água. O que a Petrópolis faz é isso. Ela tem quatro poços profundos, com 400m de profundidade, e tira 200 metros cúbicos por hora, que dão 50, 60 litros por segundo. A gente já tem até alguns lugares homologados, um no Recreio dos Bandeirantes, um no Copacabana, um na região do R11 e outro a definir, provavelmente no bairro São Benedito. Mas vamos fazer de imediato, isso é solução a curto prazo. Lembrando que curto prazo em saneamento são três 3 anos. Um poço desse tem custo em torno de R$7 milhões e obra que dura de 4 a 6 meses, conforme a dificuldade na rocha.
JM - Por que isso não aconteceu mais rápido?
ML - A questão não é que tem morosidade, mas desde fevereiro estamos planejando. Tivemos que resolver coisas mais emergentes, que estão ajudando a enfrentar a falta de água. São ações dentro da cidade, como a manutenção do posto R11, e está acontecendo o processo normal. O problema é que a Codau não tem dinheiro. O que entra de dinheiro na Codau hoje é para o custeio do tratamento de água. A Codau arrecada cerca de R$12 milhões no mês e gasta R$11 milhões, R$11,5 milhões.
JM - A inadimplência deu um desequilíbrio nisso?
ML - Não, até que não. A tarifa de água é para custeio do tratamento de água, não sobra dinheiro para investimento. Vamos buscar um plano macro e financiamento para isso. Dentro do cronograma que estabelecemos, está feito isso. Em relação à falta de água, fizemos várias ações para minimizar o problema e estão dando resultado. Não é só colocar uma bomba no rio e puxar água. Tem várias ações que podem ser feitas e que minimizam o problema. Uma coisa que acontecia no Conjunto Uberaba: a água ia para o tanque R4, no Amoroso Costa, e só depois de enchê-lo ia para o R11. Agora, a água entra direto no R11. Para você ter uma ideia, o índice de reclamação na região diminuiu 55%, mesmo com 122 dias sem chuva. Isso diminui o tempo de percurso da água. Outra coisa é que a gente pegava o poço e ligava dentro do tanque. A gente ligou aquele poço profundo direto no castelo. Então, a água do castelo vai para alimentar aquela região do Conjunto Uberaba e Antônia Cândida e a água do elevado desce para outra região. Aí você ganha tempo nisso. Outro exemplo é a região do Recreio dos Bandeirantes, onde era crítica a situação. Colocamos uma bomba no R8. O que acontecia: só quando o reservatório estava cheio é que mandava água. Agora, com a bomba, pressurizamos a linha e não tem mais falta de água. Pode haver escassez pelo racionamento, mas não falta oferta. Claro que alguns problemas da cidade têm que ser resolvidos. Tem um problema grave no Anatê, onde a adutora foi mal feita. A zona alta do Anatê vai sofrer com a falta de água enquanto não for trocada aquela rede, porque a rede desce pelo bairro de Lourdes e passa debaixo da rodovia. Quando chega lá, a pressão aumenta e o tubo arrebenta. Tivemos que colocar um redutor de pressão, então não estourou a tubulação este ano. Mas quando você coloca um redutor de pressão, a água não chega no alto. Sendo que na hora que foram aprovar o projeto do loteamento deveriam ter descido por cima. A gente está tentando corrigir erros. Às vezes, o erro não é proposital, a pessoa só não percebe. Dentro do nosso planejamento futuro está a manutenção de 100 km de adutora e uma delas é essa. Tinha problema de ligação no Jardim do Lago. A água da região vem do Amoroso Costa, mas, quando chega ao Jardim, as casas estão acima do reservatório. Faltava água. Conseguimos puxar a água do R11. Este ano, praticamente não houve reclamação de falta de água no bairro. Isso deu um fôlego grande. Já prevíamos 120 dias de seca, e o que acontece agora, se não tivéssemos tomado as ações, teria acontecido em julho. A vazão do rio Uberaba, sozinha, é de 300 litros por segundo, a mesma da crise de 2002.
JM - A transposição da água do rio Araguari é possível?
ML - É possível, mas não viável. O pessoal começou a discutir a água, e eu acho bom, tem que discutir mesmo, tecnicamente. Parar de olhar para trás, dar as mãos e andar pra frente. A discussão vai ser perene. Nós temos um comitê de enfrentamento à crise hídrica desde fevereiro, mas a gente peca por não divulgar. Quem está no comitê não tem pretensão política, tem pretensão de resolver o problema. Até falei para o presidente fazer um relatório e divulgarmos. O que acontece: todas as alternativas já estão documentadas desde 1992. Todos os relatórios estão na Codau desde 1992.
JM - Que tipo de relatório?
ML - Relatório dizendo da escassez da água do rio Claro, rio Uberaba, uma transposição emergencial, barragem e buscar água do rio Grande. Entre os dias 4 de outubro e 22 de outubro de 2002 tivemos o maior período de seca da história de Uberaba. Em novembro, contratou-se um relatório para atualizar o estudo de 1992. E ele bem fala sobre a descrição de captação do curso de água. Em 2003, já falaram sobre a barragem. A barragem iria operar de forma provisória até que a solução definitiva, no rio Grande, fosse implantada.
JM - Já era a barragem da Prainha?
ML - Sim, mas não seria na Prainha. Seriam três barragens: uma no encontro do Saudade com o rio Uberaba, outra no ribeirão Carioca com rio Uberaba e e a terceira no Poço da Morte. Isso era emergencial. Não foi feito? Não tem problema, vamos fazer agora. A Prainha era para ter sido feita onde era o Poço da Morte; mudou-se o lugar em 2015. E era para ter sido feito em 2003, de forma emergencial. Mas, agora, não adianta olhar para trás. Na época, foram feitos estudos sobre cada alternativa. Sobre rio Grande, rio Araguari, rio Uberaba, e a alternativa mais viável encontrada foi o rio Grande. Inclusive, a captação de água no rio Grande é mais barata que no rio Araguari. O grande problema é que a bacia do rio Uberaba está encravada no rio Claro.
JM - Em 2003, a Prefeitura foi à Justiça e brecou a captação de água para outras atividades a não ser para o consumo humano ou animal. Agora, a Codau pediu ao Igam para rever as outorgas. Esse processo é complicado?
ML - A questão é a seguinte. Como município, não podemos fazer um decreto e reduzir a outorga. Teria que ser um decreto estadual. O Igam monitora isso e já decretou redução em Governador Valadares. Seria uma restrição de 10%, 30%, na captação provisória, dependendo do estudo do Igam.
JM - O conjunto dessas outorgas não tem uma definição de volume de água?
ML - Eu não tenho esse dado. Eu tinha pegado só o que eu mapeei. Da nascente do rio Uberaba até onde a Codau tira água – cerca de 20 km –, tem 86 pivôs. Então, voltando à questão do rio Araguari, teríamos que bombear água do rio Araguari 9 km morro acima, em um desnível de 195 metros. Ontem, fiz uma cotação com um parceiro meu. Teria que ser uma tubulação de 800 milímetros de diâmetro e daria uma vazão de 500 litros por segundo. Só essa tubulação fica em R$34 milhões.
JM - As soluções para água são caras?
ML - São caras. Precisaríamos de 3.500 cavalos/força para empurrar a água morro acima. Isso dá mais ou menos R$1 milhão por mês de conta de energia. Já fiz todo o estudo.
JM - Qual o impacto disso para o consumidor?
ML - A curto prazo, a Codau teria que assumir, mas vamos falar em impacto. Se fôssemos buscar a água do rio Grande hoje, precisaríamos de uma potência de 4.300 cavalos, o que daria em torno de R$1 milhão e 200 mil por mês de conta de energia e, no ano, R$14 milhões e 400 mil. Considerando que a gente trata 40 milhões de metros cúbicos por ano, isso traria em torno de 35 centavos no custo do metro cúbico quadrado. Aparentemente, é pouco. Mas isso dá para assumir. A ação mais eficaz é reduzir as perdas. Uberaba hoje tira 1.200 litros por segundo e temos 340 mil habitantes. Se eu dividir o que tiro do rio por esse número, dá 305 litros por habitante. Aí eu trato essa água e chegam à sua casa 150, 160 litros. Se reduzirmos a perda para 20%, eu não precisaria de vazão de 1.200 litros por segundo, precisaria de 740. A quantidade de água que eu vou deixar de tratar, bombear e de usar produto químico. Então, esse acréscimo que vai ter na energia vai economizar reduzindo a perda, ou seja, custo zero. Eu perco na energia, mas ganho no tratamento, porque reduz a perda. Então, o impacto para o consumidor é zero.
JM - São investimentos altos. O Governo vai ter bala na agulha para manter as ações de captação do rio Grande ao mesmo tempo que faz a manutenção das tubulações da cidade?
ML - A gente tem um conjunto de 15 ações, com os poços profundos, troca de rede… nós começamos a fazer ações. A gente tem uma folga de caixa de R$300, R$400 mil. Nós já licitamos e demos ordem de serviço para trocar de filtros e reformar a ETA da Elias Cruvinel. Só para ter uma ideia, você perde de 10% a 15% na água da ETA quando ela está malconservada. A redução de 10%, quando acabar a reforma, que dura 12 meses, será de 120 litros por segundo, o que corresponde a dois poços artesianos. Outra ação que estamos fazendo agora é o cadastramento de redes. A licitação fecha agora, dia 27. Por quê? Não sabemos onde passam as redes. Vai durar 36 meses. Mas a nossa ideia é setorizar. Fechou a região leste, por exemplo? Então, vamos pegar aqui, levantar o circuito e reduzir a perda. A expectativa nossa é que, nos próximos três anos, a gente entregue esse projeto pronto. Isso tem que ser uma política de Estado, não de Governo. Depois, quem vier, terá que seguir o que começou. Passou da hora de Uberaba ter projeto de Estado.
JM - Foi o que fez Uberlândia, por exemplo, onde há um governo de 16 anos...
ML - Nós temos que juntar as mãos. Não adianta pensar “ah, porque foi fulano que fez”. É hora de resolver o problema. A gente tem que pensar grande. Uberaba tem que parar de pensar em briguinhas, senão não vamos ser cidade grande. Eu não queria falar, mas tem que perder o complexo de vira-lata.
JM - Já tem um levantamento de custo da captação do rio Grande?
ML - O projeto de viabilidade, executivo, está orçado em R$2 milhões. E o projeto total está estimado em R$240 milhões.
JM - Só projeto?
ML - Não, com a execução da obra.
JM - Quanto tempo de obra?
ML - Se a gente for usar o modelo que pensamos, trazendo às margens da Filomena Cartafina, é possível fazer adutora e captação em três anos. Mas junto disso tem que fazer uma nova Estação de Tratamento de Água. A vantagem de trazer água pela zona Sul é que vamos fazer o que Uberlândia fez: fecho o anel da cidade de adutoras. Faltou água no rio Uberaba? Eu inverto a tubulação e bombeio da outra estação, na zona Sul.
JM - Quando você diz R$240 milhões, refere-se ao câmbio atual?
ML - Sim. Vamos fazer um estudo a efeito de comparativo para apresentar para a sociedade. Por exemplo, a tubulação nós já sabemos quanto precisa. Quanto custa para o rio Uberaba e rio Araguari? ETA pra cá, ETA pra lá? Só o estudo definitivo que vai apresentar isso, então temos que mostrar para a sociedade.
JM - A nova ETA já está incluída nos R$240 milhões?
ML - Já.
JM - Isso tudo custaria R$240 milhões?
ML - Fora isso, estamos finalizando as ações emergenciais. Para isso, envolve os quatro poços, cadastramento de rede, contenção de perdas, e é um projeto de R$166 milhões. Até chegar à execução do rio Grande, vamos ter que gastar R$166 milhões agora, inclusive, considerando a energia fotovoltaica dentro da Codau. Temos esse dinheiro pré-aprovado. E, se a prefeita concordar e a sociedade confirmar, a gente já pode contratar o projeto e colocar em execução em três anos, até começarmos a captação do rio Grande. Fizemos um estudo de retorno financeiro e hoje a Codau paga R$2,7 milhões de conta de energia, exatamente o que seria a parcela do financiamento. Quando a gente zerar a conta de energia, o que eu economizo eu pago o financiamento. É onde entra a fotovoltaica. Ela é estratégica porque me ajuda a pagar o financiamento. Então, teoricamente, você não tiraria dinheiro do caixa da Prefeitura. O payback dele é de 8 anos estar zerado sem tirar dinheiro do caixa.
JM - Quanto tempo levaria a construção da captação do rio Grande?
ML - Se fosse lá fora, empresa privada, em um ano seria possível entregar pronto. Mas serviço público você sabe como é.
JM - Então dá tempo de fazer o projeto e a execução?
ML - Não, execução não dá.
JM - Por que não? Você não trabalha com a hipótese do segundo mandato não?
ML - Não, eu não trabalho. Sou pé no chão e meu projeto é de quatro anos só. Depois, jogo meu notebook no rio Grande e vou embora. E se eu tivesse um pouco de juízo, não tinha entrado para a política. Eu trabalho muito lá fora. O que tem de obra no Brasil é coisa de doido. Minha família cuida, mas meu projeto é de quatro anos só, de poder ajudar. Dei minha contribuição, encerro a carreira e pronto.
JM - Não tem como pensar grande neste aspecto de mandato?
ML - Vou até falar algo sobre a Prainha. A obra não era para ter parado. Infelizmente, no edital, a Codau deveria ter oferecido vários documentos técnicos. Toda a parte de levantamento topográfico, estudo de sedimentação, levantamento planialtimétrico… Tudo a Codau deveria ter entregue e não entregou. A construtora teve que parar a obra porque não tinha informação.
JM - Mas foi só isso?
ML - Foi falta de informação. A Codau não entregou a parte dela. Não tem um gerenciamento de projeto. E o que é isso? Quando foram fazer a adutora em Uberlândia, eles contrataram uma empresa. Quem vai garantir que a compactação está certa? Quem vai dar o marco de referência topográfica? Quem vai garantir que a válvula está certa? Não tinha isso, e estava previsto no edital. E o que acontece, nós já licitamos, contratamos, demos ordem de serviço e hoje [23] vão entregar a primeira parte do estudo para entregar a obra.
JM - A Codau não tinha como fazer isso por si própria?
ML - Não. É um trabalho de equipe de engenharia. Codau sabe fazer água, não projeto. Tem que contratar engenheiros para uma obra de engenharia. Toda empresa faz isso se quer uma obra bem feita e com qualidade. Isso não foi feito. Está notificado e parado aqui. Na primeira reunião, em fevereiro, com o pessoal da construtora, já apresentamos tudo, fizemos o edital de referência, contratamos a empresa, que já está trabalhando. Vai ter que fazer um realinhamento de preço, claro.
JM - Prainha está parada desde quando?
ML - Outubro de 2020.
JM - Segundo consta, em junho do ano passado, a empresa fez a primeira notificação para a Codau.
ML - Não, a primeira foi em dezembro de 2019.
JM - Tem dois anos que estamos esperando os projetos? A conversa que ouvimos é que seria desde junho de 2020.
ML - Desde dezembro de 2019, e a empresa ainda foi trabalhando no que ela pôde executar sem as informações. Só que chegou uma hora que não deu mais sem subsídio técnico.
JM – Então, por que ela começou a fazer se não tinha os projetos na mão?
ML - A parte de terraplanagem básica daria para ser feita sem as informações. Mas chega a um ponto que não dá. Então, o que ela pôde adiantar ela adiantou.
JM - Mas como ela licitou a obra da Prainha sem o projeto na mão? Como definiu valores?
ML - O edital tem projeto básico, e o definitivo seria entregue, com as informações, pela Codau.
JM - Mas há de convir que eu não posso passar um orçamento sem saber o quanto vou gastar. Não existe “mais ou menos”.
ML - Isso foi fornecido no edital em uma planilha orçamentária.
JM - Se ela não tinha projeto definitivo, como entrou para fazer esse orçamento?
ML - Não é normal isso. Mas são feitos ajustes. Neste prazo, a Codau deveria ter contratado esse gerenciamento e ter feito todos os estudos. Foram dois anos perdidos.
JM - Por que não entregou? Faltou dinheiro?
ML - Não sei. Dinheiro não faltou.
JM - Qual o valor deste projeto?
ML - R$1,6 milhão. Não adianta olhar para trás e perguntar “por que não contratou?”. Já contratamos e estamos resolvendo. Vamos ter que manter a Prainha porque ela também faz parte de uma reserva estratégica. Mas mudamos uma coisa nela, porque ela tem um problema de vazão. Quando o projeto foi calculado lá atrás, eles pegaram o projeto de 2003 e usaram em 2015 sem atualizá-lo. Então, a gente tem um problema de vazão remanescente. Ao invés de fazermos a tomada de água lá em cima, que aí teria uma contrapartida da Codau de R$25 milhões, ou seja, fora a barragem eu teria que gastar esse valor para deixá-la operacional, nós vamos utilizar a barragem como de regularização.
JM - Qual a diferença?
ML - A diferença é que eu continuo com a captação onde está, eu não gasto com nova tubulação. Lá, eu controlo o nível de água da captação. Vou regulando a vazão que chega e controlando o rio da barragem. E a barragem é para 15 dias. Inclusive, o estudo de 2003 diz que é para 15 dias.
JM - Lá em 2003, já havia estudo sobre a necessidade das três barragens. Vamos fazer a Prainha agora, e as outras duas? Vão ser feitas também?
ML - Olha, se nós fizermos os poços e reduzirmos as perdas, não serão necessárias. Mas a minha ideia, do Moacyr, é de fazer para recuperar o rio Uberaba. Essas barragens são necessárias para revitalizar o rio. E por falar em revitalizar o rio, 0,5% do faturamento da Codau deve ser investimento em preservação ambiental. Nós já fizemos reuniões com o Valera, com o pessoal da APA, e vamos começar a fazer o pagamento por serviços ambientais para os proprietários da APA para começarem a conservação das áreas da APA. Esse é um avanço que nunca foi feito e, como eu disse, a gente trabalha tecnicamente, não divulga.
JM – Recentemente, foi divulgado um estudo pelo Observatório Urbano. Qual a sua interpretação?
ML - Assino embaixo. Vou te falar, alimentação é necessária, mas o que acontece é que o agricultor tem que parar com o discurso de que “ah, eu produzo, então posso tirar água”. Não, tem que ser sustentável. Vai chegar a um ponto que não vai ter água para produzir. Se o agricultor, que é fundamental na economia do Brasil, não entender que, se ele não preservar, vai ser prejudicado, nosso Brasil não vai ter água em pouco tempo. Eles têm que fazer barragem para preservarem o curso da água, para isso já tem um TAC assinado. Enquanto os irrigantes não se sentarem e decidirem pelas barragens, vai continuar assim. Eles têm que ter consciência. “Ah, eu produzo alimentos, me dá mais um fôlego”. Tem 10 anos que renova TAC e nada acontece. Se tivessem feito as barragens lá atrás, teríamos água suficiente até para nós, aqui.
JM - Você se manifestou recentemente sobre a necessidade de se proibir novos loteamentos. Isso vai ser posto em prática?
ML - Isso não foi discutido ainda. A gente teve uma reunião com a prefeita, Codau, o secretário de Planejamento e ainda não bateu o martelo. Eu, Moacyr, suspenderia, no mínimo por seis meses. O nosso problema de esgoto hoje é pior que o da água. Nossa Estação de Tratamento de Esgoto atua acima da capacidade. Nós vamos construir, no planejamento de R$166 milhões, a ETE 4. Sabe onde vai ser? Perto da SOMA Ambiental. Todo o esgoto da região Sul vai bombear lá para a Francisco Veludo, que está acima da capacidade. Se a cidade crescer mais um milímetro, não terá onde colocar esgoto. Nós levantamos problemas, sentamos os loteadores e fizemos coisas em conjunto. Codau constrói a ETE 4, faz o emissário e vamos supor que dá uma tubulação de 300 e a Codau coloca de 600, prevendo o futuro. Aí dividimos. Você tem mil lotes dos 10 mil? Você paga 1/10. Tem que fazer isso.
JM - E como o pessoal recebeu isso?
ML - A princípio, falaram que o Moacyr era chato, brigão, enjoado, mas na hora que nos sentamos, no Ipê, todos ficaram felizes.