O debate sobre o fim da escala 6×1 em Uberaba ganha uma nova perspectiva a partir da avaliação de representantes dos trabalhadores, que defendem a redução da jornada como medida de proteção à saúde física e mental e de ampliação da qualidade de vida. Para o Fórum dos Trabalhadores de Uberaba (FTU), o modelo atual de seis dias de trabalho para um de descanso já não atende às necessidades da classe.
O estudante e membro do Fórum Rafael Lopes afirma que a principal queixa dos trabalhadores está relacionada ao esgotamento provocado pela rotina. “A rotina exaustiva de seis dias de trabalho por apenas um de descanso compromete a saúde mental e física, sem tempo hábil para recuperação plena. Um dos principais motivos de afastamentos pelo INSS hoje é o esgotamento físico e mental ligado à jornada”, diz.
Segundo ele, a escala também afeta diretamente a convivência familiar e a vida social dos trabalhadores. “No único dia de folga, muitas vezes o trabalhador precisa resolver serviços domésticos. Isso impede o convívio familiar regular, o lazer e o descanso adequado, mantendo o trabalhador preso apenas à subsistência”, afirma.
Rafael também aponta que o modelo atual dificulta a qualificação profissional. “A escala limita a possibilidade de o trabalhador frequentar faculdade ou cursos técnicos, o que trava a mobilidade social. No comércio e serviços, grande parte dos trabalhadores recebe até dois salários-mínimos”, completa.
O Fórum avalia que a redução da jornada poderia trazer impactos positivos na saúde e na produtividade. “Menos horas trabalhadas diminuem o estresse crônico e os casos de burnout. Trabalhadores mais descansados rendem mais, com maior foco e engajamento”, afirma.
Ainda segundo o representante, experiências em outros contextos indicam ganhos com a mudança. “Quando o trabalhador é ouvido e tratado com respeito, a produtividade aumenta. Além disso, há mais tempo para convívio familiar e participação social”, diz.
Sobre as críticas de que o fim da escala 6×1 poderia aumentar custos ou gerar desemprego, o Fórum contesta os estudos apresentados pelo setor empresarial. “Os levantamentos usados por entidades patronais não têm rigor técnico suficiente e ignoram dados que mostram que o impacto real é baixo. O custo adicional, segundo estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não seria superior a 10% na jornada, e em muitos casos é ainda menor”, afirma.
O movimento também defende que o mercado absorveria eventuais ajustes sem repasses significativos aos preços. “Em um mercado competitivo, as empresas não conseguem repassar automaticamente os custos sem perder consumidores. Além disso, trabalhadores descansados reduzem absenteísmo e rotatividade”, pontua.
O debate sobre a escala já aparece com frequência entre trabalhadores em Uberaba, segundo o Fórum. Rafael afirma que o tema é discutido em diferentes espaços da cidade. “É uma pauta que não está só na academia, mas no dia a dia das pessoas, nos locais de trabalho, nos ônibus e nas famílias”, diz.
O grupo também cita mobilizações recentes em defesa da redução da jornada, incluindo atos realizados no município e participação em manifestações nacionais. “A pauta tem crescido desde 2024 e vem sendo levada a espaços públicos e políticos como uma demanda da classe trabalhadora”, conclui.
A discussão sobre o modelo de jornada segue em aberto no país e envolve setores produtivos e representantes dos trabalhadores, que apresentam avaliações distintas sobre os impactos econômicos e sociais de uma eventual mudança na legislação.