SOFRIMENTO PSÍQUICO

Trabalhar no que não gosta impacta a saúde mental, alerta psicóloga

Permanecer numa atividade que não agrada em virtude apenas das questões financeiras pode gerar sofrimento psíquico e levar ao adoecimento mental

Juliana Corrêa
Publicado em 07/02/2026 às 12:28
Compartilhar

Thaís Pereira é uberabense, doutora em Psicologia Clínica pela USP e, nos últimos 7 anos, atuou no Hospital Sírio-Libanês em projetos estratégicos, incluindo saúde corporativa (Foto/Arquivo pessoal)

Thaís Pereira é uberabense, doutora em Psicologia Clínica pela USP e, nos últimos 7 anos, atuou no Hospital Sírio-Libanês em projetos estratégicos, incluindo saúde corporativa (Foto/Arquivo pessoal)

A permanência em uma atividade que não agrada e provoca sofrimento psíquico, especialmente quando a saída não é possível por questões financeiras, pode gerar impactos progressivos na saúde mental do trabalhador. É o que explica a psicóloga Thaís Pereira, ao analisar como o sofrimento relacionado ao trabalho tende a se intensificar quando não há alternativas imediatas de mudança.

Segundo a especialista, o primeiro passo é compreender as origens desse sofrimento, levando em conta não apenas o ambiente profissional, mas também fatores prévios, socioeconômicos e padrões de conflitos que podem se repetir em outros contextos da vida. Quando fica claro que o adoecimento está diretamente ligado ao emprego atual e a pessoa não consegue se desligar, os sinais de sofrimento psíquico tendem a se agravar ao longo do tempo. “Quando é identificado que o problema de saúde mental está relacionado ao emprego atual e, por alguma razão, a pessoa não consegue sair, a saúde mental provavelmente irá avançar na manifestação e gravidade dos sinais e sintomas de sofrimento psíquico, como choro fácil, angústia, ansiedade excessiva, alteração no sono, no humor, na criatividade, memória, atenção e libido”, explica.

Thaís Pereira ressalta que, em alguns casos, esse processo pode levar a um esvaziamento do sentido da vida, ao surgimento de sintomas físicos e até a quadros de exaustão extrema, como a Síndrome de Burnout. Por isso, ela destaca a importância da avaliação e do acompanhamento profissional logo nos primeiros sinais, lembrando que a demissão, quando ocorre, não substitui o enfrentamento emocional nem a necessidade de estabelecer limites nas relações de trabalho.

A psicóloga também chama atenção para a diferença entre desconfortos comuns do cotidiano profissional e situações que já configuram risco psicossocial. Conflitos, cobranças e esforços fazem parte da rotina de trabalho, mas tornam-se um alerta quando passam a impactar a forma como o trabalhador se percebe, suas emoções, suas relações pessoais, sua saúde e o senso de realização pessoal e profissional.

Outro ponto abordado é o chamado workismo, caracterizado pelo excesso de identificação com o trabalho. Nesse caso, o mal-estar nem sempre aparece como incômodo explícito, mas como dependência da função exercida e desinvestimento emocional em outras áreas da vida, o que também aumenta o risco de adoecimento mental e Burnout.

Ao falar sobre a permanência no emprego por necessidade financeira, Thaís destaca que esse fator pode acelerar quadros de estresse crônico, ansiedade e esgotamento. “Existe o risco de transformar o salário em uma dívida moral com o empregador ou em uma justificativa para evitar uma tomada de decisão, e muitas vezes o resultado é ultrapassar o próprio limite psíquico, entrando em esgotamento”, afirma. Para ela, a responsabilidade pela saúde mental é compartilhada: cabe à empresa oferecer um ambiente seguro e saudável, enquanto o trabalhador precisa investir no autocuidado e buscar apoio profissional quando necessário.

Thaís Pereira é uberabense, doutora em Psicologia Clínica pela USP e, nos últimos 7 anos, atuou no Hospital Sírio-Libanês em projetos estratégicos, incluindo saúde corporativa, psicologia hospitalar e implantação do curso de Psicologia na Faculdade Sírio-Libanês.

O gestor precisa estar preparado e agir para além das competências técnicas

A dificuldade de desligar um funcionário que não se engaja, não entrega ou demonstra rejeição ao trabalho não afeta apenas o desempenho da equipe, mas impõe um desgaste direto à liderança e à própria estrutura da empresa. Em situações em que o vínculo profissional está fragilizado, mas permanece ativo por impedimentos legais, administrativos ou estratégicos, a gestão passa a operar sob pressão constante, tentando manter resultados, clima organizacional e estabilidade interna.

Segundo a psicóloga Thaís Pereira, esse cenário exige do gestor uma atuação que vai além das competências técnicas. A liderança precisa equilibrar o cuidado com o time, a preservação das entregas e a atenção às particularidades do trabalhador em sofrimento, evitando que a situação gere sensação de injustiça, competitividade ou exclusão entre os demais colaboradores. Quando essa mediação não é bem conduzida, o risco é de contaminação do clima organizacional e de conflitos silenciosos dentro da equipe.

A psicóloga destaca ainda que a liderança também está sujeita ao adoecimento mental nesse tipo de contexto. Ao mediar expectativas divergentes, lidar com frustrações recorrentes e sustentar um vínculo profissional já esvaziado de sentido, a liderança pode experimentar desgaste emocional, perda de motivação e sobrecarga psíquica. “Ninguém está imune ao mal-estar no trabalho, e os gestores ocupam uma posição especialmente sensível, pois precisam sustentar o funcionamento do time mesmo em cenários de conflito prolongado”, observa.

Quando a manutenção do vínculo se prolonga sem perspectiva de resolução, a relação tende a se transformar em uma disputa improdutiva, prejudicial tanto para a empresa quanto para quem lidera. Para Thaís Pereira, reconhecer o limite dessa relação e buscar soluções institucionais claras, que podem envolver reorganizações internas ou o desligamento no momento adequado, é parte de uma gestão responsável, que protege a saúde mental da liderança e a sustentabilidade dos resultados organizacionais.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Logotipo JM OnlineLogotipo JM Online

Nossos Apps

Redes Sociais

Razão Social

Rio Grande Artes Gráficas Ltda

CNPJ: 17.771.076/0001-83

Logotipo JM Magazine
Logotipo JM Online
Logotipo JM Online
Logotipo JM Rádio
Logotipo Editoria & Gráfica Vitória
JM Online© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por