Para Eduardo Callegari, a Escola Uberaba deveria ser transformada em instituição referência para o acolhimento de alunos neurodivergentes

O impasse em torno do prédio do Sesc ocupado pela Escola Municipal Uberaba ganha um novo elemento no debate público (Foto/Divulgação)
O impasse em torno do prédio do Sesc ocupado pela Escola Municipal Uberaba ganha um novo elemento no debate público. Em meio às discussões sobre o encerramento da cessão do imóvel e as alternativas para a rede municipal, surge a proposta de transformar a unidade em uma escola especializada no atendimento a estudantes neurodivergentes, defendida pelo educador, ex-superintendente regional de ensino e ex-dirigente da Feti, Eduardo Callegari em entrevista ao programa Pingo do J na Rádio JM .
A discussão ocorre no mesmo contexto em que a Câmara Municipal realizou a reunião pública para tratar da devolução do anexo pertencente ao Sesc, com a presença do presidente da Fecomércio MG, Nadim Donato. Enquanto o Legislativo e o Executivo buscam soluções físicas para a escola, Callegari chama atenção para o perfil pedagógico que, segundo ele, já se consolidou na Escola Uberaba.
Para o educador, a unidade apresenta características visíveis de ensino especial. Ele destaca que a preferência das famílias não se explica pela localização nem pelo espaço físico, já que a maioria dos alunos vem de bairros distantes. “O que se percebe é um alto número de neurodivergentes, e isso não é casual. A Escola Uberaba já tem esse perfil, e a comunidade reconhece isso”, afirma.
Callegari sustenta que a ciência aponta limites no modelo atual de inclusão irrestrita. Segundo ele, misturar alunos neurodivergentes severos com estudantes do ensino regular, sem suporte adequado, não funciona. “Hoje não é mais professor de apoio, é profissional de apoio. Pode ser terapeuta ocupacional, psicólogo, fisioterapeuta, enfermeiro. A pergunta é: os profissionais das escolas estão preparados para lidar com um aluno em crise?”, questiona.
Na proposta defendida, a Escola Uberaba passa a funcionar como uma escola de ensino especial — sem substituir o papel da Apae — voltada a estudantes que necessitam de maior suporte técnico e pedagógico. O modelo prevê turmas menores, ambientes adaptados e uma equipe multidisciplinar preparada. “Romper o tradicionalismo das paredes é fundamental. Por que precisa ser carteira rígida? Por que não salas adaptadas? A escola precisa se adaptar ao aluno, não o contrário”, argumenta.
Outro ponto levantado é o zoneamento. Embora esteja localizada no bairro Fabrício, a escola atende alunos de toda a cidade. Para Callegari, isso reforça que o local físico não é determinante. “A grande maioria dos alunos vem de fora. Isso mostra que a escolha das famílias passa pelo projeto pedagógico, não pela proximidade”, afirma.
A proposta também considera o impacto da devolução parcial do prédio ao Sesc. Callegari avalia que parte dos alunos poderia permanecer no prédio histórico, após reforma e adequação, enquanto os demais seriam redistribuídos para outras unidades. “Se hoje falamos em 1.200 alunos, esse número já cai pela metade. O restante pode ser reorganizado sem deixar ninguém sem escola”, afirma, destacando que professores também seriam absorvidos pela rede. “Nenhum profissional fica sem trabalho.”
Para ele, Uberaba tem a oportunidade de se tornar referência nacional. “Uma escola em que todos, do porteiro ao diretor, respiram ensino especial, com preparo técnico e humano. Isso pode colocar a cidade na frente, e a prefeita tem sensibilidade para liderar esse processo”, avalia.
Enquanto o futuro do prédio segue em debate entre Município, Câmara e Sistema S, a proposta reacende uma discussão mais ampla: não apenas onde a Escola Uberaba deve funcionar, mas qual papel ela pode cumprir dentro da política educacional da cidade.