O dinheiro perdido em apostas on-line pode desencadear um ciclo de dívidas que ultrapassa o orçamento mensal e chega ao patrimônio dos jogadores. Em Uberaba, profissionais de saúde mental já acompanham casos de pessoas que comprometeram salários, recorreram a empréstimos e até colocaram imóveis e veículos em risco para tentar recuperar os valores perdidos.
O psicólogo Sérgio Marçal, da Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, afirma que a compulsão por bets já chega à rede pública da cidade. Em entrevista ao programa Pingo do J, ele também relatou situações acompanhadas em consultório particular envolvendo dívidas de centenas de milhares de reais. “Eu estou falando de apartamentos, de carros, de imóveis, de modo geral, de empréstimos. De um endividamento sério. Grande. De centenas de milhares de reais. É 100, 200, 300, beirando um milhão”, explica.
Segundo o psicólogo, a tentativa de recuperar o dinheiro perdido é um dos mecanismos que mantém o jogador preso às apostas. A pessoa passa a acreditar que uma nova aposta pode compensar o prejuízo anterior, aumentando gradativamente o valor comprometido. “Ele gera aquele raciocínio na pessoa de querer recuperar o que perdeu. Então a tendência à compulsão é muito maior”, afirma.
Quando os recursos disponíveis acabam, o jogador pode começar a recorrer ao próprio salário e a outras fontes de renda para continuar apostando ou quitar dívidas anteriores.
Sérgio relata casos de trabalhadores que chegam ao ponto de comprometer a folha salarial e antecipar recursos que seriam utilizados posteriormente. “Trabalhadores que chegam a ficar com a sua folha salarial comprometida a ponto de não conseguir fazer nem conseguir nada mais para ir repondo essas perdas”, pontua.
A falta de dinheiro pode levar ainda à procura por empréstimos. Segundo o psicólogo, há pessoas que recorrem inclusive a crédito informal, com cobrança de juros elevados e pagamentos em períodos curtos. “Tem pessoas que estão nessa situação. Eu pego 5 mil reais para pagar em 30 dias, dividido por 30, com 20%”, explica.
Nesse cenário, uma dívida pode ser utilizada para cobrir outra, enquanto novas apostas são feitas na expectativa de recuperar o dinheiro. O resultado é um endividamento que pode crescer rapidamente.
Em casos mais graves, o comprometimento financeiro deixa de envolver apenas dinheiro disponível e passa a alcançar bens. Segundo Sérgio, há relatos de jogadores que colocaram carros, apartamentos e outros imóveis no meio da tentativa de reorganizar as finanças ou recuperar os valores perdidos.
O problema pode se prolongar mesmo quando a pessoa já não possui recursos próprios para apostar. A facilidade de acesso ao crédito e a expectativa de recuperar o prejuízo podem alimentar novas tentativas.
A situação também pode envolver recursos que ainda nem foram recebidos. De acordo com o psicólogo, há trabalhadores que antecipam férias e décimo terceiro para conseguir dinheiro.
A combinação entre perdas sucessivas, empréstimos e comprometimento da renda faz com que o jogador tenha cada vez menos alternativas para lidar com as próprias despesas.
Para Sérgio, outro fator que favorece a manutenção do comportamento é a facilidade de acesso às plataformas. Pelo celular, o jogador pode apostar durante o dia inteiro, inclusive enquanto trabalha. “Imagine você recebendo notificação na sua área de trabalho a todo tempo. Joga, joga, joga. Isso é infernal”, ressalta.
A exposição constante às notificações e às possibilidades de novas apostas pode reforçar a expectativa de que a próxima tentativa será capaz de recuperar o dinheiro perdido.
A dimensão do problema também começa a aparecer nos serviços de saúde de Uberaba. Em junho, a Secretaria Municipal de Saúde informou ao JM que cerca de dez pacientes haviam participado, no último semestre, de um grupo terapêutico específico para pessoas com Transtorno do Jogo no CAPS AD.
O número não inclui pacientes que apresentam a compulsão associada ao uso de álcool ou outras drogas.
Segundo Sérgio, muitos pacientes procuram atendimento somente quando o problema já alcançou um estágio avançado. “As pessoas têm chegado muito graves. Nós temos no serviço público hoje grupos para jogadores compulsivos”, informa.
Para o psicólogo, o endividamento é uma das consequências que podem revelar a dimensão da compulsão, mas a busca por ajuda não precisa esperar que o jogador perca patrimônio ou comprometa toda a renda.