Intragável, inaceitável e jamais previsto Confesso que este não será um final de semana como os outros. Admito que não queria, mas a tristeza teima em tomar conta desse meu coração a partir de agora. Não só do meu tomarás, tenho certeza, mas também de tantos outros milhares de carnais que lutam diariamente pela paz, pelo amor, pela dignidade e pelo respeito ao próximo. Sentimentos esses que, se levados com fidelidade às suas essências e seguidos à risca, não permitiriam que estas linhas fossem escritas neste final de semana, que repito, não será lembrado com alegria como os outros. Após ler este capítulo da história triste do futebol uberabense, momentos de reflexão tomarão conta do seu dia. Vale a pena pensar!
Lendo, assistindo e ouvindo noticiários que fazem parte da minha vida como jornalista, percebo que talvez este não seja somente o primeiro artigo com um teor tão intragável, inaceitável e jamais previsto. Dói saber e imaginar que pode, também, não ser o último. Uma guerra com nós mesmos
Como sonho profissional, sempre tive o desejo de cobrir jornalisticamente uma guerra. Daquelas em que um líder de governo tem como obstinação única, o poder. Sem se importar com nada, nem ninguém, um todo
poderoso qualquer faz do ser humano um escudo descartável. Já cheguei ao ponto de imaginar tiros, bombas, ataques aéreos contra um microfone, câmera, bloco de papel e um lápis. Depois da batalha sangrenta, aqueles que nunca lutaram pela paz, pelo amor, pela dignidade e pelo respeito, citado logo acima, são caçados como bichos e, se encontrados, são exibidos como troféus em praças públicas.
Fascina-me, ainda nos dias de hoje, a honra de um homem defender sua nação. Mas o desejo de cobrir a guerra já faz parte do meu passado. Isso porque entendi que já vivo em uma tão sangrenta quanto a imaginada. Já me dei por satisfeito com tantos tiros, assaltos, mortes e abusos de poder. A guerra que vivemos hoje não tem um só líder de governo, não é só por religião ou idealismo. Travamos hoje uma guerra com nós mesmos. Um tanque abatido pela guerra social
Sábado, dia 12 de novembro de 2011. Para a maioria uma data normal. Nada além do dia após um 11 de novembro de um ano qualquer. Mas para muitos, este será um dia para gritar socorro e clamar por justiça. Sim! Justiça!
Completa-se hoje exatamente um ano que nosso velho tanque de guerra foi abatido pela nojenta e ainda imbatível guerra social. Completa-se um ano que perdemos um craque, um ídolo, um apaixonado pelo futebol, um pai e um filho de família. Completa-se um ano que um ser humano precisou sacrificar seu corpo físico para mostrar o verdadeiro mundo de injustiças que vivemos. Completa-se um ano que perdemos André Nascimento, o Tanque Colorado, o eterno atacante do Uberaba Sport.
Assassinado brutalmente no ano passado, as marcas da dor e do desespero em busca de justiça ainda perduram. Sei que ele está bem e em paz, mas não havia palavras que justificassem aquela tamanha crueldade. A dor fica e a saudade permanece
Minha querida mãe sempre me fala uma frase que talvez a leve para o resto da vida. “Quem inventou a distância, não conhecia a saudade”. Acredito não ter verdade mais verdadeira que esta. A saudade machuca, fere e corta feito navalha. Não só sinto saudades dos tempos em que o Colorado mais querido do mundo tinha um elenco unido, forte e destemido, mas também dos tempos em que a alegria reinava em treinos, rachões e concentrações.
Saudades também sinto de ver a humildade de André Nascimento concedendo uma entrevista. Encabulado, sempre se corava frente ao microfone, câmera ou jornalista.
Saudades de ver o Tanque Colorado comemorando um gol e batendo na veia, forçando o pulsar, agradecendo a recuperação física dada pelo massagista do clube, fazendo a torcida chorar.
Parece mesmo que a distância desse craque está fazendo sua parte.
Hoje, muitos choram por conta dessa saudade que talvez nunca passe.
As lágrimas que um dia foram derramadas sobre aquele pedaço de madeira que repousava o corpo do nosso craque, hoje são derramadas não por estar sentindo a tal saudade, mas por saber que a justiça ainda não se fez valer. Uma história para contar
Se um dia puder contar essa história a meus netos, poderei exclamar que, com muito orgulho, também fiz parte dela.
Estádio Engenheiro João Guido – Uberabão, dia 24 de outubro de 2010. Precisamente às 10h da manhã. Taça Minas Gerais daquele ano. Acordava eu naquele domingo com tempo manhoso, um chuvisco aqui, outro acolá, e com uma baita dor de garganta que incomodava terrivelmente percebo o telefone tocar. Olho o número e reconheço ser da emissora onde trabalho. Era meu amigo Bruno Sousa, que naquela oportunidade exercia os trabalhos de plantonista, me ligando dos estúdios da Rádio JM, fazendo-me uma convocação meio às pressas e com tom meio esbaforido. A ordem era para que eu me vestisse rapidamente e partisse para o estádio Uberabão. O narrador David Augusto que transmitiria aquela partida, não se sentia bem e teria eu que substituí-lo.
Calça, tênis, meia e camisa azul que completava o uniforme. Em menos de cinco minutos estava pronto e com mais dez cravados no cronômetro, estava dentro do estádio, que ficava perto da minha casa. Comentarista Carlos Ticha trabalhava ao meu lado com seus comentários sempre sérios e eficientes. No gramado do Uberabão um repórter dividia o profissionalismo com a paixão pelo time. Gullit Pacille, natural da cidade de Patos de Minas, sentiu o gosto amargo de ver seu time, o Mamoré, sendo derrotado pelo Uberaba Sport. Com gol de quem? O último gol de André Nascimento
“Graças a Deus tive a oportunidade e a felicidade de fazer o gol e tirar essa Zica do Uberaba”, afirmou o atacante André Nascimento no intervalo da primeira para a segunda etapa da partida entre Uberaba Sport x Mamoré. Tal gol não só acabou com a má fase do ataque, como também classificou o Uberaba Sport para a semifinal da Taça Minas Gerais de forma antecipada.
Tudo junto na última cobrança de escanteio, na última fugida do zagueiro. Subindo sozinho e absoluto, André mandou para o fundo das redes.
Gooooooooooooolllllllll do Coooooloraaaaaado, eu gritava alucinadamente. André, André, André Nascimento o velho tanque era o grito que enlouquecia a torcida.
Este foi o último gol!
Este foi André Nascimento!