Volto à cena emocionante, mostrada pela televisão em dias próximos ao Natal, em 2012: a despedida do terno Cauã, de sete anos, ainda no leito, curado e prestes a deixar o hospital, e a doce enfermeira, que deve tê-lo atendido nos dias de internação. A experiência afetiva que os uniu é permeada pelo sentido da sedução antropológica, que, segundo Monsenhor Juvenal Arduini (crônica de 11/6/2004, Jornal da Manhã), manifesta a transparência, estimula a esperança, ergue a voz, ascende o olhar; luta para eliminar sofrimentos dramáticos e para restaurar pessoas desencantadas. Se a sedução, diz ele ainda, “mantém a personalidade limpa”, “convence [...] pela vontade de originar a humanidade sublime”, e seduzir é tocar e se deixar tocar essencialmente, na articulação intersubjetiva, o contato do garoto e a enfermeira envolve o aquecimento e a animação de subjetividades em confraternidade afetiva, não sujeitos necessariamente a apelo sexual.
A sedução está também na raiz da doçura, que se revela no espírito sem exasperação, aberto, interativo, desarmado de artimanhas de poder, medo, usura, violência. Para André Comte-Sponville (obra Pequeno tratado das grandes virtudes), entre as virtudes, ela “é o que mais se parece com o amor”: “Quantas generosidades importunas, porém, quantas boas ações invasoras, esmagadoras, brutais, que um pouco de doçura teria tornado mais leves e mais amáveis?”
É comum o doente, em internação hospitalar, sentir-se frágil, submisso, desamparado, em desconforto. O estado de abatimento, desencanto não procede só da dor física, define também a dor emocional/espiritual. A disposição acolhedora deveria ser inerente aos profissionais da saúde, mas nem sempre é. A doçura expressa em palavra, olhar, toque, ou na simples presença amena, e até no silêncio respeitoso, não combina com atitudes invasivas, arrogantes, displicentes, frias, impessoais. No tratamento paliativo ou de cura, ela ajuda no alívio a quem sofre; eleva o ânimo do oprimido, impotente; protege o que se sente sozinho e ameaçado; reconhece dignamente o ser humano, sujeito – não objeto, ainda que inconsciente, em coma, ou doente terminal – até o último instante de vida.
Penso com gratidão na enfermeira Maria Carolina Belo da Cunha, que foi uma presença sensível na UTI do Hospital São Domingos, de Uberaba, nos dias de dolorosa solidão da minha mãe, em estado grave, mas lúcida, nesse espaço. Devido à conduta amorosa e delicada de Maria Carolina com o enfermo e os familiares, talvez não lhe seja fácil encontrar pares para dialogar. Sem o cuidado acolhedor, o melhor aperfeiçoamento teórico não a qualificaria com a mesma competência humana e profissional, que ela tem.
Sendo dócil e compassiva a pessoa sai de si e se coloca no lugar do outro. Não há nada mais sedutor do que alguém sentir com o outro e por ele, o que depende do despojamento do ser, não do acúmulo de informação técnica. A sedução pode ser cultivada para o bem das relações humanas, indistintamente, mas especialmente no exercício de áreas da saúde, como Medicina, Enfermagem e outras. Cabe maior mérito ao que se torna dócil, amável, porque se educa eticamente, do que a quem tem a doçura nata.