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Brasil apreende mais de 100 mil armas por ano, mas mercado ilegal muda de perfil, aponta estudo

Publicado em 01/08/2026 às 15:13
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Apesar de as forças de segurança brasileiras apreenderem cerca de 100 mil armas de fogo por ano, o mercado ilegal segue ativo e passa por mudanças no perfil dos armamentos e na distribuição pelo país. A avaliação é de pesquisadores do Instituto Sou da Paz, com base em dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Em 2025, foram retiradas de circulação 107.746 armas, o segundo maior número registrado entre 2021 e 2025. Segundo o estudo, o Brasil está entre os países que mais apreendem armas irregulares ou utilizadas em atividades criminosas.

Os pesquisadores destacam que a circulação ilegal de armas tem impacto direto nos índices de violência. Estimativas apontam que cerca de 40 mil pessoas morrem por ano no país em decorrência de disparos de arma de fogo, responsáveis por mais de 70% dos homicídios.

Além das perdas humanas, o estudo ressalta que a violência gera efeitos econômicos e sociais, como aumento dos gastos públicos, sobrecarga nos serviços de saúde e assistência e redução da produtividade. Os custos sociais da violência são estimados em 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB).

Perfil das armas apreendidas mudou

O levantamento mostra mudanças importantes no tipo de armamento retirado de circulação. Os revólveres continuam liderando as apreensões, mas perderam participação no período analisado, passando de 38,6% para 33,5%.

Já as pistolas ganharam espaço, saltando de 20,7% para 27,8% do total. Os fuzis, embora ainda representem uma parcela pequena, mais que dobraram sua participação, passando de 0,7% para 2%. As espingardas também registraram queda em relação ao início da série histórica.

Nordeste amplia participação nas apreensões

Regionalmente, a pesquisa aponta uma mudança no mapa da violência armada. O Sudeste reduziu sua participação nas apreensões nacionais, caindo de 41% em 2021 para cerca de 36% em 2025.

Em contrapartida, o Nordeste passou de 25% para 33% do total de armas apreendidas, cenário associado à expansão de facções criminosas, disputas territoriais e novas dinâmicas do crime organizado.

Entre 2019 e 2023, a média anual de armas apreendidas pelas polícias Civis e pela Polícia Federal superou 109 mil unidades. De acordo com comparações feitas pelos pesquisadores, esse volume colocaria o Brasil atrás apenas dos Estados Unidos em número de apreensões.

A maior parte desse trabalho é realizada pelas forças estaduais. Cerca de 98% das apreensões são feitas pelas polícias Civil e Militar, enquanto Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal respondem pelos 2% restantes.

Mercado interno abastece o crime

O estudo aponta que, atualmente, a principal fonte de armamento utilizado por organizações criminosas é o próprio mercado legal brasileiro.

Segundo os pesquisadores, as armas chegam ao crime por diferentes caminhos, como compras realizadas por intermediários ("laranjas"), desvios envolvendo colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), furtos e roubos em empresas de segurança privada e extravios de armamentos pertencentes ao Estado.

Embora o tráfico internacional continue existindo, sobretudo por meio de países vizinhos e dos Estados Unidos, o levantamento indica que ele vem perdendo espaço para o abastecimento interno, fenômeno descrito como uma "substituição de importações".

Entre os fatores apontados estão o menor custo para adquirir armas no mercado doméstico, a redução dos riscos relacionados ao contrabando internacional e a ampliação do acesso legal a armamentos de maior poder de fogo nos últimos anos.

Produção clandestina cresce

Outro ponto destacado é o avanço da fabricação ilegal de armas dentro do próprio país.

Além das tradicionais submetralhadoras artesanais, investigadores identificaram o crescimento da produção de chamados "ghost rifles", armas sem número de série ou identificação válida, fabricadas com equipamentos cada vez mais sofisticados.

Segundo o estudo, desde 2023 surgiram estruturas clandestinas capazes de produzir centenas ou até milhares de fuzis por ano, reduzindo a dependência de peças importadas e dificultando o rastreamento pelas autoridades.

Especialistas defendem foco na investigação

Para o Instituto Sou da Paz, retirar armas de circulação é importante, mas não suficiente. Os pesquisadores defendem que as forças de segurança ampliem as investigações para identificar a origem dos armamentos e desarticular as redes de abastecimento do crime organizado.

Entre as recomendações estão a integração de bancos de dados, fortalecimento do rastreamento de armas, criação de delegacias especializadas, aperfeiçoamento da fiscalização, endurecimento da legislação para crimes envolvendo armamentos de maior poder de fogo e investimentos em inteligência policial e perícia.

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