CUIDADOS COM A SAÚDE

Check-up no início do ano: quando os exames ajudam e quando eles atrapalham

Especialistas alertam para o risco do overdiagnosis e defendem uma abordagem personalizada da saúde preventiva

Alex Bessas/O Tempo
Publicado em 26/01/2026 às 09:51
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Na comparação com a correria do fim de ano, janeiro soa até mais leve e propício, com o calendário recém-virado, para promessas de organização financeira e resoluções de mudança de hábitos. Entre os compromissos dessa época, muita gente inclui as visitas médicas para “colocar a saúde em dia”, o que inclui a realização de check-ups. Parece um ritual de cuidado, mas o hábito pode significar também uma armadilha ao transformar a preocupação com a saúde em um excesso, fazendo do rastreamento uma fonte de ansiedade e da medicina preventiva uma caça por problemas que talvez nunca se tornassem problemas de fato.

O fenômeno não é novo, mas se intensificou nos últimos anos, impulsionado inclusive por gadgets que quantificam em tempo de diversos biomarcadores; pela facilidade de acesso a exames laboratoriais; e, sobretudo, pela cultura da performance, impulsionada pela lógica das redes sociais – que, de quebra, ainda popularizou termos médicos, hormônios “da moda” e promessas de longevidade quase infinita. O resultado dessa equação tem nome próprio: overdiagnosis ou, em português, superdiagnóstico – o sufixo “super”, aqui, indica excesso, não superioridade.

“O termo é usado para se referir ao diagnóstico de uma condição que não causaria sintomas ou morte ao longo da vida se não fosse detectada”, explica Carla Tavares, coordenadora do Serviço de Medicina do Exercício e do Esporte da Rede Mater Dei de Saúde. “Esse fenômeno é bem documentado em rastreamentos indiscriminados. Resultados falso-positivos levam a mais exames, estresse, ansiedade e tratamentos desnecessários, sem redução comprovada de mortalidade”, detalha.

O risco, completa, é transformar a prevenção em hipervigilância. “Cada biomarcador fora do ‘ideal’ passa a ser visto como doença. Isso gera ansiedade e medicalização excessiva”, argumenta, inteirando que o papel do médico, nesse contexto, é ajudar o paciente a compreender limites, probabilidades e contextos. “Saúde não é ausência absoluta de alterações. É equilíbrio, funcionalidade e bem-estar”, descreve. 

Ela reconhece, no entanto, que o início do ano faz sentido como momento simbólico de cuidado, mas precisa ser desmistificado. “Culturalmente, o começo do ano é visto como um novo início. E faz todo sentido incluir a saúde entre as metas. O problema é transformar isso em uma corrida por uma ‘lista completa de exames’”, comenta, antes de destacar que exames sem indicação específica podem gerar ansiedade, resultados falso-positivos e uma cascata de investigações desnecessárias. “A melhor estratégia é um check-up personalizado, baseado em hábitos de vida, história pessoal, histórico familiar e fatores de risco reais”, recomenda.

Menos glamour, mais precisão

Do ponto de vista clínico, Carla destaca que o essencial muitas vezes é menos glamouroso do que os painéis extensos oferecidos por laboratórios. “Avaliação médica com anamnese completa e exame físico bem feito são fundamentais. Entre os exames de sangue, perfil de colesterol e glicemia são úteis para estratificação de risco cardiovascular e detecção de diabetes”, exemplifica. Alguns rastreamentos de câncer também têm benefícios comprovados, como mamografia em faixas etárias definidas e colonoscopia a partir dos 45 anos. Por outro lado, exames amplos de hormônios, vitaminas e minerais são frequentemente solicitados sem respaldo científico em adultos sem fatores de risco. “Eles raramente trazem informações relevantes e podem gerar prescrições desnecessárias e riscos adicionais”, pondera.

Ela ainda defende que a medicina baseada em evidências precisa caminhar junto com a educação do paciente. “É fundamental explicar benefícios e limitações dos exames, trabalhar com risco e probabilidade, e não com alarmes isolados”, reforça. E, sobretudo, enfatizar aquilo que tem impacto consistente e comprovado na saúde a longo prazo: atividade física regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade, redução do estresse, cessação do tabagismo, vacinação.

Excessos são especialmente comuns na velhice

A médica geriatra Elen Cristina da Mata concorda e ressalta que, para o público idoso, o problema tem ainda mais camadas. Ela pondera que, sim, o check-up faz sentido em todas as fases da vida, inclusive na velhice, mas precisa ser entendido como parte de um cuidado contínuo, e não como um pacote fechado de exames. “O cuidado não deve ser baseado em protocolos automáticos. Ele precisa considerar o histórico clínico, as condições de vida, a faixa etária e os objetivos do paciente. Caso contrário, o excesso pode gerar ansiedade, diagnósticos irrelevantes e tratamentos desnecessários”, ressalta, assinalando que, mais importante do que fazer muitos exames, é ter acompanhamento médico regular, com indicações racionais e individualizadas.
 
Essa lógica do “quanto mais, melhor” é especialmente delicada quando se fala em envelhecimento. “A chamada ‘linha de base da saúde’ muda completamente com o envelhecimento”, explica Elen. “Em pessoas jovens, o foco costuma ser prevenir doenças futuras. Com o avançar da idade, a decisão precisa levar em conta funcionalidade, autonomia, fragilidade e expectativa de vida – e não apenas a idade cronológica”, detalha. A geriatra informa que indivíduos mais frágeis, por exemplo, muitas vezes não se beneficiam de estratégias cujo retorno acontece apenas no longo prazo. “Por isso o acompanhamento com um geriatra é fundamental. Ele ajuda a ponderar riscos e benefícios e a priorizar aquilo que realmente impacta qualidade de vida, independência e bem-estar”, cita.

Aliás, a discussão sobre o que rastrear, quando rastrear e até quando parar de rastrear é um dos pontos centrais da geriatria contemporânea. “O rastreamento se transforma em um risco quando identifica alterações que não causariam sintomas nem prejuízo ao paciente, mas acabam levando a investigações e tratamentos sem benefício real. Esse fenômeno é particularmente relevante na geriatria”, estabelece Elen. Um exemplo citado por ela é a dosagem indiscriminada de testosterona, prática cada vez mais difundida fora do ambiente médico, impulsionada por discursos sobre desempenho físico, estética e vitalidade. “Pouquíssimas pessoas realmente precisam investigar ou repor testosterona. A busca por valores ‘ideais’, muitas vezes com fins estéticos, tem levado a reposições inadequadas, o que é contraindicada pelas sociedades médicas”, alerta. As consequências podem ser graves: aumento do risco de AVC, infarto, trombose e outros eventos cardiovasculares, sem benefício comprovado para a maioria dos idosos.

Polifarmácia

O excesso de exames muitas vezes abre caminho para outro problema frequente no envelhecimento: a polifarmácia. Nesse sentido, se bem direcionado, o check-up de início de ano pode – e talvez devesse – ser também um momento de revisão e até de retirada de tratamentos. “A reconciliação medicamentosa e a desprescrição são fundamentais”, afirma a geriatra Elen da Mata. “O uso simultâneo de muitos medicamentos está associado a quedas, confusão mental, interações medicamentosas, internações e perda de funcionalidade”, adverte. Essa revisão, destaca ela, precisa incluir não apenas medicamentos prescritos, mas também vitaminas, suplementos e produtos considerados “naturais”. “Tudo isso deve ser avaliado de forma cuidadosa e compartilhada, para que o paciente use apenas aquilo que realmente traz benefício e segurança.”

A leitura dos exames, diga-se, exige um olhar igualmente cuidadoso. “Na geriatria, não tratamos números, tratamos pessoas”, resume a médica. “Resultados laboratoriais devem ser interpretados à luz da avaliação clínica. Existem variações que acompanham o envelhecimento natural sem representar doença. Por outro lado, exames dentro da normalidade não excluem investigação quando há queixas importantes ou perda funcional”, analisa, frisando que o acompanhamento contínuo é o que permite diferenciar sinais de alerta reais de alterações sem impacto clínico.

Fonte: O Tempo.

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